Saturday, October 15, 2016

Estação Primeira de Maria da Graça



Voltei a Maria da Graça (aqui), desta feita em busca do Bairro dos Ingleses, instigado que eu ficara com postagem no Instagram de meu amigo virtual Henrique Kurtz. Henrique, que ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, divide comigo, com o Ivo Korytowsky, com o Rixa, com o Raul Félix de Sousa, o prazer de andar pela urbe em busca de paisagens e personagens ligeiramente diferentes dos bons e velhos Corcovado e Pão de Açúcar.

Não encontrei o Bairro. E, sem querer, esbarrei mais uma vez com o Café e Bar Lisbela, aka Bar da Amendoeira, que tem alguns dos mais lindos cobogós da cidade e uma das melhores carnes secas (que eu não como). Não tinha bolinho de vagem, mas a cozinheira prometeu que teria mais tarde.

O bairro é pequeno, mas descobri monte de coisas novas, como o raro São Joaquim.












Selarón por aí :: Escadarias

Charitas


A Escadaria Selarón, linda obra do artista chileno, é hoje destino quase incontornável dos visitantes da cidade. Lembro de ter lido, década de 90, carta no jornal queixando-se de que, deixássemos, Jorge Selarón cobriria a cidade inteira de cacos de azulejos, cerâmicas e espelhos. Por aí se avalia. Hoje que a obra é bem tombado e recebe turistas, provável que aquele missivista de nada se queixasse ou guardasse para si suas lamúrias. A tal da chancela externa, oficial, internacional, essas coisas.

Escusado lembrar que há nessa escadaria entre a Lapa e Santa Teresa algo de Casa da Flôr (aqui e aqui) e, por extensão, claro, Gaudí.

Para quem, como eu, gosta muito da "obra nunca completa" do artista, seguem outras quatro escadarias de Jacó na mesma linha: Niterói, Babilônia. São Cristóvão (mais aqui), São Paulo.


Charitas





Babilônia




São Cristóvão




São Paulo





Friday, October 14, 2016

Blake e Ginsberg tatuados no braço


Nunca vi tantos tatuados. Nunca vi tantos tão tatuados. O que eu ainda não vira é um verso do Allen Ginsberg tatuado no braço, no lugar do dragão. No lugar da caveira, no lugar do Carpe Diem ou da frase em japonês, árabe ou sânscrito aprendida para a ocasião e logo depois esquecida.

I'm with you in Rockland, coração corpo aberto no espaço, um uivo na pele de nossa amiga mineira, ali perto da vacina (Lu não é bailarina), uma vacina contra a uglification do mundo.

Não para por aí. No outro braço, Ah! Sun-Flower, do mestre visionário que aparecia a Ginsberg em visões ácidas e tenras.


Lu, Ginzy e as Cariris




Wednesday, October 12, 2016

Agora sabes possuir / Uma deusa entre as pernas



Descubro "Celebration" de Leonard Cohen, que tem por duas primeiras estrofes ::

When you kneel below me
and in both your hands
hold my manhood like a sceptre,

When you wrap your tongue
about the amber jewel
and urge my blessing, (...)

poema que imediatamente me lembrou o Drummond de

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
(...)
Nunca pensei ter entre as coxas um deus.


Bem, gostei da Celebração como gosto da graça do Carlos, mas pensei, bem, e quando somos nós que ajoelhamos?

Aí, saí-me com isto :

Agora sabes possuir
uma deusa entre as pernas
de que me fiz devoto
à primeira vista e cheiro
não quero Shantadurga ou Kali
Afrodite nem Atená
Fátima Néftis
Yansã Iemanjá
quero esta que tens
no recôndito das coxas
esta que sobre mim reina
implacável e doce
esta que me aprisiona
ao menor aceno
esta a que volto sedento
esta a que volto sereno
esta que me dessedenta

com seus lábios de mel
esta oblíqua e dissimulada 

que me doma e dobra os joelhos
para assim levar-me ao céu

em meio a ásperos pentelhos
esta a deusa que adoro
eu que ateu me acreditava
esta a menina-deusa a que rendo
preito rendido e incansável
não quero Shantadurga ou Kali
Afrodite nem Atená
Fátima Néftis
Yansã Iemanjá
quero a deusa que possuis
no recôndito das coxas
ante a qual me ajoelho
e devoto (mui devoto) expio

Tuesday, October 11, 2016

O Pipoqueiro da Esquina :: Meu Drummond Autografado



Não tenho nenhuma editio princeps do Drummond autografada. Eu, que me contentaria com coisinha pouca: o Alguma Poesia (1930) ou o Claro Enigma (1951). Tenho, no entanto, dois livros com seu autógrafo: uma antologia de poesia moderna e O Pipoqueiro da Esquina, lançado pela Codecri (do Pasquim) em 1981. Minha edição, para compensar, tem autógrafo dos dois, o do Ziraldo com desenho.

O livro reúne desenhos feitos por Ziraldo para as 'pipocas' do Carlos, isto é, pequenos registros de fatos políticos e sociais ocorridos no Brasil de maio de 1979 a março de 1981, então publicados no Caderno B do Jornal do Brasil.

A ideia é ótima, porém, passados 35 anos, devo dizer que a grande maioria das charges, em que pese sua grande qualidade técnica, envelheceu mal, irremediavelmente datadas. Estão ali a Abertura, o sonhos de eleições, as bombas "terroristas" (que os milicos colocavam nas bancas que vendiam jornais "subversivos"), a inflação, a falta do feijão, Delfim Netto, o cavalo do Figueiredo.

Algumas charges até resistem, outras soçobram em ingenuidade.

Mas é o meu Drummond autografado.


Adoro esta


Monday, October 10, 2016

Otto Lara Resende no Jardim Botânico


Otto Lara Resende, que aceitou concorrer a uma vaga da Academia com a frase "É a morte que nos leva a desejar a imortalidade impossível", está imortalizado no bronze de uma bela estátua numa esquina do Jardim Botânico, de costas para as árvores, de frente para o trânsito infernal, sorrisinho mineiro nos lábios.

(Acerca da ABL: ele entrou. E é uma pena que 'imortalidade', 'imortais' sejam, às vezes, apenas palavras, pois, quando ele se foi, entrou em sua vaga um tal de Roberto Marinho)

A esquina não é muito movimentada, mas qual passante o reconhece? Quantos leem hoje, ou leram, outrora, o menos famoso dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, mais lembrado como frasista (em especial 'O mineiro só é solidário no câncer') do que por sua ótima obra de ficção? É pena. Seus contos de O Retrato na Gaveta e As Pompas do Mundo são primorosos.

Outras quatro frases (sim, gosto delas) :


"Sou exatamente o menino que aos nove anos foi declamar um verso de Antero de Quental e se perdeu." (como isso lembra Herta Müller)

"O homem é um animal gratuito"

"Ultimamente, passaram-se muitos anos."

"Há em mim um velho que não sou eu."


Da última vez que cruzei com ele, havia jambo lindo florindo, vejam a foto acima.

E aqui eu conversando justo com ele, há dois anos, em Beagá ::


Friday, October 07, 2016

Rio Comprido :: Beyond your Beauty

Café e Bar Ondina


Não consigo ir ao Rio Comprido sem voltar com punhado de fotos no bolso. Talvez porque ali tenha morado Nava, que ao bairro dedicou todo um capítulo do seu Baú de Ossos. Bastava isso, aliás, para ser o Rio Comprido destino obrigatório de quem visita a cidade. Talvez porque ali tenha rua chamada Estrela (aqui), talvez porque (dizem) Cecília nasceu ali.

Talvez porque ao Rio Comprido eu tenha voltado para buscar livro comprado na véspera na Estante Virtual em manhã de ventos frios.

A parada no Café e Bar Ondina é obrigatória. Porque lá o dono chama a heineken de heidjéker e sentado com os olhos para a Praça da Condessa posso ler

Lost in the fields of your hair I was never lost
Enough to lose a way I had to take;
Breathless beside your body I could not exhaust
the will that forbid me contract, vow,
Or promise, and often while you slept
I looked in awe beyond your beauty. 

< leonard cohen, 'travel' >





Flores para Bolsonaro II



Este é o segundo poema que traduzo do Flowers for Hitler, livro publicado em 1964 pelo singer-songwriter canadense Leonard Cohen. O primeiro está aqui.



MILÊNIO


Este poderia ser meu livrinho
de amor
se eu o escrevesse --
mas meu bom demônio disse:
'Esquece os documentos!'
Todos me olhavam
queimar meus livros --
Rodei minha tocha da liberdade
feliz como um monstro da Gestapo
tudo que eu queria salvar
era uma cicatriz
uma ou duas queimaduras --
mas meu bom demônio gritou:
'Esquece os documentos!
O fogo não interessa!'
A pilha queimava tranquilamente
Fui pra casa para um banho
Liguei pra minha avó
Aquela da artrite.
'Se cuida', eu disse, 'esquece a dor.'
'Você também', ela respondeu.
Horas depois fiquei pensando
no que ela quis dizer
que eu esquecesse a minha dor
ou a dela?
E nisso meu bom demônio voltou:
'Isso é tudo que você pode fazer?'
Bem... era?
Era tudo que eu podia fazer?
Havia uma senhorinha
comendo sozinha, pensando
no Príncipe Alberto, nos campos de Flandres,
em Chisinau, dedos machucados demais
pros botões da TV;
mas como eu podia ir até lá?
Já não não tinha livros
tampouco endereços --
meu bom demônio voltou:
'Danem-se os documentos
Você sabe chegar lá!'
E de repente eu cheguei!
Lembrei de cabeça!
Encontrei-a
derramando-se sobre a árvore genealógica
da família real
'Vó'
eu quase disse
'Tá de cabeça pra baixo --'
'Olha', ela disse,
'só vai até o George V'.
'O suficiente
minha doce vampira!'
'Tem razão!', ela cantou
e queimou o encarte
da London Illustrated
Não entendi
que dia era aquele
até que olhei pra fora
e vi as janelas todas em fogo
e multidões de homens
doidos pra falar
e gatos e cachorros e pássaros
sorrindo-se uns aos outros!


MILLENNIUM


This could be my little
book about love
if I wrote it--
but my good demon said:
'Lay off documents!'
Everybody was watching me
burn my books--
I swung my liberty torch
happy as a gestapo brute;
the only thing I wanted to save
was a scar
a burn or two--
but my good demon said:
'Lay off documents!
The fire's not important!'
The pile was safely blazing.
I went home to take a bath.
I phoned my grandmother.
She is suffering from arthritis.
'Keep well,' I said, 'don't mind the pain.'
'You neither,' she said.
Hours later I wondered
did she mean
don't mind my pain
or don't mind her pain?
Whereupon my good demon said:
'Is that all you can do?'
Well was it?
Was it all I could do?
There was the old lady
eating alone, thinking about
Prince Albert, Flanders Field,
Kishenev, her fingers too sore
for TV knobs;
but how could I get there ?
The books were gone
my address lists--
My good demon said again:
'Lay off documents!
You know how to get there!'
And suddenly I did!
I remembered it from memory!
I found her
pouring over the royal family tree,
'Grandma,'
I almost said,
'you've got it upside down--'
'Take a look,' she said,
'it only goes to George V.'
'That's far enough
you sweet old blood!'
'You're right!' she sang
and burned the
London Illustrated Souvenir
I did not understand
the day it was
till I looked outside
and saw a fire in every
window on the street
and crowds of humans
crazy to talk
and cats and dogs and birds
smiling at each other!

Flores para Bolsonaro I



Pequeno projeto : traduzir alguns poemas de Flowers for Hitler, livro de 1964 do singer-songwriter canadense Leonard Cohen (aqui).

A tradução é, humm, livre, como toda deve ser. Assim "I have lost a telephone", verso escrito na primeira metade da década de 1960, torna-se "Perdi meu celular".

E o título mesmo, o controverso "Flowers for Hitler" torna-se "Flores para Bolsonaro", tradução bastante fiel, creio, ao que Leonard exortou em nota inicial: "Há um tempo este livro seria chamado Brilho do Sol para Napoleão e antes disso teria sido chamado Muros para Gengis Khan".



ESPERANDO MARIANNE

Perdi meu celular
com teu cheiro

Estou morando ao lado do rádio
as estações todas ao mesmo tempo
escolho uma canção de ninar polaca
escolho-a em meio à estática
ela vai embora espero mantenho o ritmo
volta já quase dormindo

Você pegou o telefone
sabendo que eu ficaria cheirando-o
desmesuradamente
talvez aquecer o plástico
para guardar as migalhas do teu bafejo?

e se não voltares
como ligarás para dizer
que não voltarás
(eu podia ao menos brigar contigo)


WAITING FOR MARIANNE

I have lost a telephone
with your smell in it


I am living beside the radio
all the stations at once
but I pick out a Polish lullaby
I pick it out of the static
it fades I wait I keep the beat
it comes back almost alseep

Did you take the telephone
knowing I'd sniff it immoderately
maybe heat up the plastic
to get all the crumbs of your breath

and if you won't come back
how will you phone to say
you won't come back
so that I could at least argue

Em busca da girafa que por lá andava


Aproveitei toda um poema do Augusto Rodrigues (aqui), nele fiz mínima rasura e inseri toda uma estrofe. com empréstimos


Lia Machado de Assis de cabeça pra baixo
escrevia rápido de trás pra frente
inventava a língua que falava
usava os sapatos na cabeça
e a todos indistintamente cumprimentava
como se todos
todos fossem seus irmãos

Voltou ao Rio Comprido de manhã
em busca da girafa que por lá andava
não foi difícil girafas
não sabem se esconder
esbarrou com ela na Rua da Estrela
número 122 o cep eu não sei
girafa salpicada de barracos
que nos astros pisava distraída 

Wednesday, October 05, 2016

O Pioneiro das Escolinhas de Arte Inventava a Língua que Falava



Augusto Rodrigues não foi apenas gravador, pintor, caricaturista e fotógrafo, foi também poeta. Daqueles bissextos, é verdade, embora não me conste que seu conterrâneo Manuel o tenha incluído em sua antologia (aqui).

E, em tempos obscurantistas em que se cogita retirar Artes do currículo: Foi o pioneiro na criação das escolinhas de arte para crianças no Brasil. 

Viva Augusto Rodrigues!

Como poeta, dois livros apenas. Possuo o primeiro, de 1971, autografado. Se a capa pode sugerir angústia e desespero, o tom geral dos 27 poemas é bem outro: a verve modernista de um Ascenso Ferreira, um prenúncio dos mimeógrafos de Cacaso e Francisco Alvim, e também algum Drummond. Drummond setentista.

21
O meu relógio é
Omega
suíça precisão
perco a hora da missa
do almôço
da sesta
da lua
da rua
da festa
porque êle preciso
e eu a indecisão

24
Comprei máquina elétrica
para de leve escrever
os poemas que te faço
não não quero que os leias
prefiro que te distraias
com as batidas do teclado

25
Lia Machado de Assis de cabeça pra baixo
escrevia rápido de trás pra frente
inventava a língua que falava
usava os sapatos na cabeça
e a todos indistintamente cumprimentava
como se todos
fôssem seus irmãos




PS: mantive os chapèuzinhos, em memória da minha mãe

Saturday, October 01, 2016

Caravaggio, Inventor do Cinema



Sem pensar muito, faço lista dos meus dez pintores favoritos, em desordem ::


Caravaggio
Bosch
Modigliani
Chagall
Paul Delvaux
Zizi Sapateiro
Vermeer
Portinari
Ensor
Egon Schiele

para ter a certeza de o quão imbatível este 2016 está sendo, já que vi exposições de 30% dos supracitados. Portinari no MASP (aqui), Bosch no Prado e o inventor do cinema no Thyssen-Bornemisza.

Essa história de "inventor do cinema" é do Peter Greenaway, que em entrevista de quase dez anos afirmou:  

"Caravaggio, Velázquez e Rembrandt foram os inventores do cinema, três séculos antes dos irmãos Lumière Estão ali a dramaticidade e o jogo de luz e sombra que fizeram a grandeza do cinema narrativo nos anos 30 e 40. E é esse aspecto sensorial que o espectador absorve, muito mais do que a estrutura romanesca."

Peter pode estar certo na primeira parte, mas essa história de que o espectador absorve mais chiaroscuro que a estrutura romanesca... é muito wishful thinking.... Quem nos dera.

Jardim das Delícias