Saturday, August 20, 2016

Os Azulejos do Retiro em Madri (Azulejos de Madri II)



Todos sabemos que painéis azulejares amiúde prestam-se a motivos sérios, isto é, sacros ou históricos. Assim, foi com surpresa e alegria que descobri na estação de metrô Retiro em Madri, de dentro do vagão ainda, não um mas três grandes painéis com motivos humorísticos. A estética é a dos quadrinhos e parece mesmo que temos diante dos olhos algo como um Onde está Wally espanhol. En verdad, como os livros de Martin Handford começaram a ser publicados em 1987, parece-me apropriado ver aqui sua influência sobre o trabalho da ceramista espanhola Esther García Ocampo. Dezenas de pessoas em um parque (Retiro é um parque, perto do Prado, usado pelos nobres para a caça) engajadas em diversas atividades. O tom bem-humorado é onipresente, bem como a cor local, na figura de uma tuna, uma andaluz, um menina de Velázquez.

De um lado dois grandes painéis de 15 X 20 azulejos. Em outro, um mais retangular com 9 x 30.

Dá vontade de perder-se em contemplação e perder o trem. Eu mesmo perdi três.




















Friday, August 19, 2016

Crônicas Marroquinas VI ::: O Curtume de Fez



A medina de Fez é um labirinto, clichê sequer metáfora. Não é como um labirinto ou lembra um. É. Praticamente não há nomes de ruas, ocasionalmente indicações para a Bab Boujlou. É preciso de fato um fio de Ariadne e, à falta deste, uma memória cuidadosa, absurda. Se a medina de Fez é um labirinto, maior cidade medieval do mundo onde vivem 700 mil almas, o Minotauro reside no curtume para as quais a hortelã é quase inútil para aplacar o fétido odor :: hálito implacável do monstro que se desprende a cada arroto.

Onde o Neruda marroquino para o lamento dos homens, meio corpo imerso na colmeia de índigo, henna, açafrão, cocô de pombo, urina de vaca, para não falar nos mais hodiernos ácidos, que já não estamos em dias de Averróis. Onde?

Onde o Mário magrebino para escrever, abancado à escrivaninha em Casablanca, que sente de supetão friagem por dentro, ao lembrar que lá em Fez, homens alados, negros de cabelo nos olhos, depois de fazer um sapatinho que irá vestir o mimoso pezinho da alemã, esse homem faz pouco se deitou, está dormindo, este homem marroquino que nem nós?





Wednesday, August 17, 2016

A praça faz-se escura logo às seis



neste longo interregno sem cigarras
a praça faz-se escura logo às seis --
o Dante enovelado em seu balanço
que a fogo lento sonha-se pandorga
em ritmado voo pelo espaço

    areia, a tarde deste agosto escorre
na ampulheta do tempo :: o casaco
sobre os ombros nossos rituais sobre
os ombros e somos nós apenas
ante o mundo a caminho de casa
antes que lua se cubra de vespas

Crônicas Marroquinas V :: Orson Welles em Essaouira



Orson Welles filmou seu Othello (1952) em pelo menos nove locações diferentes no Marrocos e na Itália. Foram três anos de filmagem absurdamente dificultosos, algo como, ouso comparar, Coppola comendo carne de urso para fazer seu Apocalypse Now nas Filipinas.

A dramática e impactante cena inicial -- os funerais de Othello e Desdemona e a punição de Iago -- foi toda rodada em Essaouira.

Parece hoje há pequena praça em homenagem ao diretor. Não vi. Vi exaltações de gaivotas, garotos-gaivotas voando das muralhas, over and over, e um mercado de peixe. Tudo isso do lado de cá da medina ainda.

Agora tentem descobrir quais fotos são minhas e quais do Orson. Rarrá.













Tuesday, August 16, 2016

Crônicas Marroquinas IV ::: Comendo Camelo

Clock



Só fui ter a comprovação definitiva de que camelo não faz parte da culinária marroquina ao tornar a recorrer, já de volta ao Grajaú, ao maravilhoso Morocco: A Culinary Journey with Recipes, de Jeff Koehler, que não só não inclui nenhuma receita com o ruminante como sequer o menciona no índice onomástico. Ou seja, não há mesmo frase como 'Travelers who come to Morocco thinking about savouring camel etc'.

Minha passagem por lá, que incluiu visitas e estadias a Marrakesh, Essaouira, Fez, Meknès e Sefrou, de certo modo comprova-o. De certo modo. Porque... meninos eu vi. Vi uma cabeça de camelo cheia de verduras na boca pendurada em um 'açougue' na medina de Fez. E... meninos, comi. Enfim provei do bicho no já mítico Café Clock, aonde cheguei atrás dele, e depois incidentalmente em Meknès. Então, Mr. Koehler, da próxima vez me faça o favor.

Antes de mais nada: não é camelo o que se vê (e se come) em Marrocos, é dromedário. Confundi-los é como achar que crocodilo e jacaré são a mesma coisa, isto é, ignorar número de corcovas e cabeças chatas (no caso do jacaré). Cheguei mesmo a suspeitar que sua quase ausência na culinária marroquina dever-se-ia ao seu caráter quase que doméstico. Ou seja, um local comê-lo por lá seria como comermos por aqui cavalo ou cachorro. Tentei / testei esta hipótese junto a uma atendente de um restaurante em Fez, mas ela não me entendeu.

Quanto à carne em si, eu que não como carne vermelha há mais de 30 anos não posso ser muito preciso. O hambúrguer no Café Clock em Fez soube-me muito, muito bom. O tajine com ovos e carne de camelo (na forma de almôndegas) no Semira em Meknès não ficou atrás.

Faltou só provar do leite da camela, de que não vi rastro. Mas isso fica para a próxima, quando enfim encontrarei O Encoberto.



Meknès

Fez

Monday, August 15, 2016

Crônicas Marroquinas III :: Les Chats

Sefrou


São muitos e alguns chegam a, sendo fêmeas, usar o véu, enquanto outros, varões, vestem o fez. O que dava agonia era ver os tão miúdos aventurando-se nas ocupadíssimas medinas, tantos sapatos no caminho.

Os gatos de Marrocos, uns poucos.

A caminho de Essaouira

Essaouira

Essaouira

Sefrou

Fez

 

Sunday, August 14, 2016

Crônicas Marroquinas II :: Cerveja no Marrocos

Riad Andalib, Fez


Na Turquia a cerveja corre generosa, havendo mesmo incipiente nicho artesanal (aqui). Na Tunísia, onde estive há 15 anos, a coisa não é tão fácil, mas consegui até copo (Celtia), pérola da coleção. Sofri mesmo foi no Marrocos: um calor que chega mole aos 46 e nem uma pilsenzinha ordinária. Quer dizer, há, mas restritíssima a alguns hotéis, a pouquíssimos restaurantes e restaurantes de hotéis. E aí é estar com muita sede para desembolsar 60 derhans (6 euros; 22 reais) por garrafinha de 300 ml.

Isso significa muita água para aplacar o calor (até aqui, tudo bem), mas também schwepps ou suco de laranja para acompanhar seu cuscuz de cabrito, seu tagine de frango e mesmo seu hambúrguer de camelo. Significa comer peixe e camarão grelhado fresquíssimos em Essaouira com coca-cola. Sigh.

Quando havia, a Casablanca. Quando descobrimos a Flag Spécial, também da cidade de 'play it again', um pouco mais barata, foi para logo constatar que a garrafinha é de 250 ml. Nunca vinham geladas; fresquinhas, no máximo. Meu amigo Victor, que por lá andou um pouco antes, pediu gelo. No hotel em Fez havia também a Stork, esta sim geladíssima, prazer inenarrável.

As explicações para tamanha carência quase sempre recaíam nos motivos religiosos, o Estado islâmico não proíbe de todo, como na Mauritânia, mas evita conceder a licença para marroquinos, fazendo-o apenas para estrangeiros (?!). Evitar-se-ia também o consumo de alcool no interior da medina ou próximo a mesquitas ou a medersas (escolas religiosas). Mas vai encontrar um local em Marrakesh ou Fez que não seja próximo a uma mesquista ou medersa. Ou seja.

Casablanca, Flag, Stork: todas pilsens. Honestas. Deixam a tríade da AmBev no chinelo. Artesanal? Nem pensar. Fazê-la em panelas no quintal da sua casa seria algo como um beijo gay em público. E tome chária no lombo.

E à noite os cafés ficam abarrotados de homens de todas as idades. Que conversam tomando água e chá de menta.

Hotel em Marrakesh

Café em Marrakesh, pareceu-nos clandestino

Essaouira

Drink de boas-vindas : chá de menta