Monday, February 22, 2016

Os Azulejos da Gruta de Capri



Aquela história de sempre: nos quase vinte anos em que morei em Niterói frequentei a Gruta de Capri com a assiduidade de um verdadeiro araribóia, amiúde fazendo a dobradinha filme na UFF e depois pizza. Às vezes show na UFF e depois aquela pizza, que nada tem de DOC, quase tão caseira quanto a que minha avó fazia com fermento Fleischmann para comermos com arroz nos aniversários.

A pizza era boa assim, pedíamos o molhinho da casa e ele vinha por fora, sem custo adicional.

Eu me mudei, a Gruta mudou, perdeu o ar de cantina do Bixiga para ganhar ares modernex, mas, graças, houveram por bem deixar o grande painel de azulejos na mesma parede onde tudo observa há 55 anos.

A história de sempre: nunca me preocupei em registrar o grande trabalho de 200 peças porque estava sempre ali, tão à mão. Verdade que eu não ligava tanto para azulejos assim.

Seguem registros da bela obra assinada por Angelo Toledano de certa M. Artes / Rio. Encanta pela linda combinação de azul com amarelo, lembrando que a gruta de verdade atende por Grotta Azzurra. Há certeiro realismo na representação dos barquinhos que só podem ser ocupados por, no máximo, três pessoas. E há atmosfera onírica de grande beleza na representação das estalactites e estalagmites e, sobretudo, da luz.

Camila viu aqui alguma semelhança com a obra pictórica de Blake. Fiquei com vontade de dizer que ela anda lendo o poeta demais. E concordei.








Friday, February 19, 2016

I Can See for Miles :::: The Who

Em Monterrey


Na época azul bebê do Orkut havia uma comunidade chamada "The Who é melhor do que Beatles", onde fãs ardorosos de Townshend & Co. defendiam a inquestionável superioridade da banda, brandindo que os Besouros lograram mais sucesso, sim, mas isso deveria ser colocado na conta de fatores como sorte e, claro, a idiotice pervasiva das pessoas.

De vez em quando apareciam fãs ardorosos dos Beatles só para provocar, algo assim como um torcedor do Bonsucesso atravessar a torcida da Olaria vestindo a camisa do seu time numa tarde quente da Rua Bariri.

Nunca entendi esse fla x flu infantil, mesmo quando se trata de Beatles X Stones. Mas que as bandas competiam entre elas, em maior ou menor grau, isso é inegável, amiúde instigadas por essa bobagem de charts, top 10, top 20 das paradas de sucesso, como se fazer música fizesse de você um atleta que tem que necessariamente suplantar adversários.

Lembro de um episódio envolvendo "Helter Skelter" e "I Can See for Miles". Eu pensava que Pete e Paul haviam feito mesmo uma aposta em um pub sobre quem seria capaz de compor (escrever a letra, produzir e tocar) a música mais "suja", pesada, ever.

Não foi bem assim. Paul, ao ler uma resenha do The Who Sell Out em que descrevia "I Can See for Miles" como a música mais pesada jamais feita, encrencou com aquilo e, competitivo como sempre foi, decidiu simplesmente escrever coisa ainda mais pesada. Daí, "Helter Skelter". Que, convenhamos, faz a música do The Who soar como single da Galinha Pintadinha.

Pelo menos sempre pensei assim até a noite de ontem. "I Can See for Miles" (que, competições idiotas à parte, é ótima) deixa "Helter Skelter" no chinelo no quesito bateria. "Ah, mas aí é claro", dirão, mas não se trata apenas disso. É ótimo exemplo de como o The Who trouxe a bateria para a frente da sonoridade da banda, como jamais havia sido feito. Fizeram o mesmo com o baixo, by the way. E só o fizeram porque tinham Keith e John para isso.

Neste vídeo aqui, de 1969, a bateria está literalmente à frente da banda! Se por um lado isso é interessantíssimo, por outro é redundante.

Ver o baterista assim à frente....olha, só com orquestra sinfônica tocando o Bolero, e digo que é ótima experiência visual.

PS necessário para mostrar o quão imparcial eu sou quando o papo é Beatles X The Who: os Beatles já haviam dado à bateria uma importância que ela jamais tivera, colocando-a em nível superior nas apresentações. Mas isso em termos puramente visuais, era algo que funcionava nos shows, não na sonoridade da banda.

Claro que uma coisa é ter um Richard Starkey nas baquetas, outra é ter o Lunático.



Thursday, February 18, 2016

Os Azulejos da Encantada



O que há de melhor na Encantada, a casa de Santos Dumont na Rua do Encanto em Petrópolis, é a casa em si, misto de sonho e pragmatismo.

Há ainda um observatório sobre o telhado, mais sonho que pragmatismo, aonde o Aviador ascendia para roçar o chapéu nas nuvens e estrelas.

E, no fundo da casa, três lindos paineis de azulejos de 2012 exaltando os feitos de Alberto. Assina-os Lázaro Truci.









Thursday, February 11, 2016

A Nagy Füzet ::: Obra-Prima Húngara



Eu e meu amigo Felipe Barroso temos dívida histórica para com o húngaro. É que quando ele cismou de ir à Hungria, achou, acertadamente, que a coisa mais natural a se fazer antes da viagem era falar com Paulo Rónai. Ao ligar para ele, o grande tradutor que adotou Nova Friburgo como pátria, perguntou-lhe com voz grossa "O senhor fala húngaro?".

Virou piada interna. Anos se passaram e eu também fui, mas até hoje só continuo sabendo duas palavras, quais sejam, sör (cerveja) e köszönöm (obrigado) que, convenhamos, já dá para um bocado, ainda mais nesta ordem.

Mas ao assistir ao soberbo filme A Nagy Füzete e descobrir que seu nome em português virou O Diário da Esperança, decido que, a partir de hoje, começo as lições do idioma magiar nem que para isso eu recorra ao sleep learning, isto é, coloque os romances do Sándor Márai (aqui) debaixo do travesseiro.

O filme é uma obra-prima. Tem de tudo, menos esperança. Junto ao alemão O Tambor (1979) e ao russo Vá e Veja (1985), a trilogia perfeita de filmes envolvendo crianças e Segunda Guerra. Mas tem que ter estômago.


Sunday, February 07, 2016

Azulejos de António Igrejas em Paquetá



Agnosticismos à parte, como gosto de visitar igrejas, aproveito sempre a oportunidade para fazer, digamos, uma e outra mentalização. Ao visitar a Igreja de São Roque (santo que, por motivos eufônicos, sempre foi dos meus diletos) em Paquetá, pedi fervorosamente que eu não deixasse a ilha sem ter encontrado algum painel dos Igrejas.

Batata.

Depois de conhecer o pequeno "Park Güell" nos fundos da Casa de Cultura, farejei coisa boa numa pousada de esquina. Resultado: três paineis do António Félix Igrejas de 1988: um pequeno em ótimo estado de conservação retratando a Ilha de Boa Viagem, um outro maior de canto de parede e, last but not least, um monumental de 416 peças, retratando o Rio Antigo e praticamente todo tapado por latas de cerveja e refrigerante. O dono da pousada ainda assegurou-me que a barra da piscina também é obra dele.

Seguem fotos. Para poder registrar o enorme painel sem as malditas latas, pretendo me hospedar nem que seja por uma noite no local.

Saí de lá dando urras a São Roque.

O de canto de parede




O grande painel de 416 peças


Linda assinatura





Saturday, February 06, 2016

A Revolução dos Caquinhos

Cachambi


 Sabemos que os caquinhos foram inventados para servir de piso, aliás, eles nem foram inventados para isso, eles eram sobra do que se quebrara, depois acharam que ficava bonito e os cooptaram, é sempre assim, até o punk foi cooptado, mas ainda é bonito. Mais bonito, sempre repito, quando fazem composições com eles.

Mas aqui casos em que os caquinhos se insurgiram e ocuparam todo o muro, toda a fachada, todo o banco de jardim em que se namora.

Puro exemplo de art naif....

Publico exemplos de belos desenhos e exemplos da revolução, no Morro da Providência, em Tomás Coelho, no Cachambi....

Engenho Novo

Engenho Novo

Méier

Bento Ribeiro

Morro da Providência

Tomás Coelho

Friday, February 05, 2016

Tem Índio na Platibanda



Estão lá os santinhos de sempre, no grupo de quatro azulejos na platibanda, fazendo as vezes de orago da casa. Estão lá o indefectível São Jorge, a onipresente N.S. de Fátima, São Sebastião, o Sagrado Coração de Jesus e, sendo Paquetá, São Roque. Também encontram-se conjuntos de azulejos não-figurativos, sobretudo em construções do estilo neocolonial hispânico, o que, arrisco dizer, parece demonstrar desejos de uma burguesia que preferia não se aferrar ao passado colonial (santinhos = Portugal), lembrando que o estilo colonial hispânico, também conhecido como Missões, chegou-nos via Estados Unidos, no pós-guerra.


Mas o que mais amei mesmo foi a cabeça de índio tamoio na platibanda daquela casa. Será o Cacique Guaxaitá? Terão mesmo os tamoios habitado a Ilha das Pacas? Isso é preciosismo.

A cabeça está lá. Único busto de índio em platibanda encontrado até hoje na cidade.

Dom Pedro II disse que só o Caraça pagava toda a viagem a Minas. Parafraseio: só a cabeça altiva do índio paga todo o passeio a Paquetá....






Bem, verdade que em Tomás Coelho encontrei também este soberbo painel aqui.....


E em Higienópolis este aqui, provavelmente um Igrejas, mas em péssimo estado de conservação ::


Wednesday, February 03, 2016

A (Última) Partida de Stefan Zweig

Tabuleiro de Stefan Zweig


Não são poucas as referências ao xadrez na casa de Stefan Zweig em Petrópolis. Casa onde ele e sua mulher Lotta viveram por apenas cinco meses, de setembro de 1941 a 22 de fevereiro de 1942, quando o casal cosuma seu pacto de morte.

Não poderia ser diferente. Zweig era enxadrista, daqueles diletantes sérios. Dentre seus pouquíssimos objetos pessoais hoje encontrados na casa, seu tabuleiro. Um dos poucos livros seus era justamente um compêndio em que o grão-mestre russo Tartakower comenta 150 partidas do início do século XX. E na casa, que ele chamava de bangalô, escreve seu último texto, a novela "Xadrez".

A história, fascinante, com o mérito já de lidar abertamente com os horrores da guerra e do nazismo no olho mesmo do furacão (algo assim, digamos, como a quinta de Prokofiev e a sétima de Shostakovich) tem personagens soberbamente construídos e uma tensão que lembra O Jogador, do Dostoievski.

Mas queria -- eu que tenho horror à crítica biográfica e não insinuo tal cousa aqui -- era fazer certa analogia. Sabe-se que numa partida de xadrez entre dois jogadores experientes dificilmente haverá xeque-mate. Quando o jogador se vê encurralado, quando ele sabe-se irremediavelmente encurralado, simplesmente abandona o jogo. Daí, em descrições de partidas, ser tão comum o "pretas abandonam" ou "brancas abandonam".

Não foi exatamente o que Stefan e Lotta fizeram?

"Saúdo a todos os meus amigos! Que ainda possam ver a aurora após a longa noite! Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes."

Varanda da casa

Quintal

Tuesday, February 02, 2016

Dois Lindos Paineis Azulejares do Méier



Dois lindos paineis de 48 peças cada, de uma horizontalidade incomum. Possuem uma moldura "falsa" branca, posto que no próprio painel, e uma cercadura verdadeira, a cargo daquelas "tripas" pretas. Os paineis estão dispostos sobre parede azulejar verde piscina, por sua vez emoldurada por cobogós e azulejos enxaquetados bicolores (brancos e pretos, cuja rara presença em botequins foi tratada aqui).

Para quem se encanta com esses boabagens... what a sight.

Encontram-se no quintal de uma casa do Méier, talvez fosse mais apropriado falar em garagem.

Os donos da casa me garantiram que são obra de loja de material de construção que havia na esquina. No canto inferior direito de um deles li Claudio / Casa Luzes.

Percebe-se que o desenho do templo no lago (será o Templo Dourado dos sikhs na Índia??) é absolutamente o mesmo do encontrado há dois anos num painel da Tijuca, onde havia como "assinatura" "Cerãmica Brasileira / Irmaõs Silva / 1963 (ver o post aqui).




João, taxista aposentado, dono da casa

morava num painel desses, fácil

fácil




Painel em edifício da Tijuca