Thursday, January 14, 2016

Crónicas Chilenas V ::: Valparaíso dos grafites



Eles estão por toda a parte. Poéticos, críticos, políticos, sensuais, jocosos, autorreferentes, oníricos. No caminho da Sebastiana e fora dele. Na descida que desemboca na cervejaria Altamira e longe, bem longe desta. Impossível pensar Valparaíso sem seus cerros, impossível lembrar da cidade sem seus ascensores, inimaginável imaginá-la sem seus grafites, que lhe tatuam a pele como os para sempre extintos selk'nam.


















 








Wednesday, January 06, 2016

Crónicas Chilenas IV ::: República Independiente del Pisco



O pau come libérrimo entre peruanos e chilenos quando o assunto é o local de nascimento do pisco. Um pouco como escoceses e irlandeses brigando pela criação do whisky ou moradores do Grajaú e de Honório Gurgel discutindo em qual bairro nasceu o jogo do taco.

Eu, que em 2015 briguei mais do que gostaria, fico com o Vargas Llosa achando isso tudo uma bobagem. Mesmo porque o marco zero não é o mais importante, senão o local onde hoje ele, seja o pisco, o whisky ou o taco, (re)nasce, reinventa-se.

Mais ou menos nesta postura reconciliadora o maravilhoso bar Chpe Libre, aka República Independiente del Pisco, em Lastarria. Chpe, isto é, parte do Chile e parte do Peru, um inimaginável e improvável país imaginário onde se pode degustar (a palavra é esta!) pisco todos os dias e comer leite de tigre a se fartar. O cardápio é dos mais espirituosos que já vi. O piso é de azulejo hidráulico, se alguém beber até cair ao menos fica bonito na foto.

Mas impossível beber até cair quando se tem uma degustação com quatro leites de tigres daqueles..... ¡Dios! Agora já sei o que pedir antes de ser fuzilado.

O pisco já merecera um post neste blog aqui.

PS: No Chile comemos mais comida peruana que chilena. Sem remorsos. E em restaurante peruano ou não, pedia sempre meu pisco sour peruano. Mas sem brigar.






Tuesday, January 05, 2016

A tarde agora é a mesma tarde


todo está como entonces
Nicanor Parra


a tarde agora é a mesma tarde sempre
a mesma tarde acaso serão outras
as cigarras outros os flamboyants
estes o coágulo de sangue contra
o céu aquelas noivas desesperadas
suicidas no fim da tarde quente
fraturada com o chegar das sombras
será portanto a mesma tarde de eu
menino suado e infinito jogando
bola nas ruas do Grajaú. só
creio que haja uma diferença
uma única e pequena diferença
hoje o tempo a tudo invadiu
com seu pálido manto de tristeza

Monday, January 04, 2016

Crónicas Chilenas III ::: Valparaíso de los Perros



Houve viagem em que fotografei tanto gato (aqui), esta foi dos cachorros. Claro que no Rio temos também vira-latas a dar com pau (é só uma expressão!), mas não me lembro de vê-los em plena, digamos, Rio Branco. Em Santiago eles vagam em plena Libertador Bernardo O'Higgins, defronte ao pleno Palacio de La Moneda.

Percebi que olhavam com carinho para a estátua de Allende. E mijavam por onde Pinochet se demorou.

Sábios perros.

As fotos são todas de Valparaíso, onde gostam de dormir à sombra dos grafites.






Sunday, January 03, 2016

Crônicas Chilenas II :::: As Casas do Pablo



Abençoado o país que tem como uma de suas principais atrações a casa de um poeta. Não um cassino ou uma praia ou um vulcão. Ou uma floresta ou uma bebida ou um rio ou bundas, mas a casa de um homem ou uma mulher que teve por ocupação arranjar palavras sobre a superfície branca do papel. No caso do Chile, aquela tripa esprimida entre o Pacífico e os Andes, são três as casas do mesmo Neruda que, agora estou convencido, pertence àquela classe rara de seres 'larger than life'.

Me aborreci na entrada das três : aquela quase militarização das visitas ("vamos lá, todos em fila, peguem seus áudios, ordinários, marchem!"), mas um aborrecimento logo feito em pedaços quando se adentra os espaços tão lindamente ocupados pelo Bardo.

Pelo menos duas das casas, a de Santiago (La Chascona) e a de Valparaíso (La Sebastiana) sofreram saques e depredações nas mãos dos vermes partidários de Pinochet. Hoje resistem orgulhosas e vitoriosas. Mesmo porque ditaduras podem destruir todas as casas e todas as flores. Mas não podem impedir a chegada da primavera.

Este é um post inicial, urgente. Pretendo depois fazer um para cada casa, com mais fotos.

Sebastiana

Chascona

Ilha Negra

Crônicas Chilenas I ::: Valparaíso não é para azulejófilos



Se o amante de grafite encontra em Valparaíso material para infindáveis deleites, não creio se possa dizer o mesmo para o fã de azulejos.

Mas tem aquela casinha onde hoje funciona um hostel e que pertenceu aos artistas Oscar Capeche e Giselene Spiliotis. Sua fachada é coberta de lindos azulejos feitos pelo casal. Na sala há tampos de mesa, frisos, espelhos de escada. Isso tudo vimos recém-chegados em Valpo. Dois dias depois conseguimos entrar e encontramos os paineis.

Isso se descobre andando. Não há referência em nenhum guia. 

A reparar como a pintura figurativa lembra o perturbado e perturbador belga Ensor (1860-1949).