Sendo a azulejaria herança portuguesa e sendo os patrícios amiúde levemente agarrados ao passado, não poderiam faltar caravelas. Não faltam. Publico painéis que encontrei por aí.
O de Paquetá, em uma casa, interessantíssimo por colocar, na mesma timeline, uma caravela e prédios da Urca.
O da entrada de São Januário (1927) é uma obra-prima do português Jorge Colaço, artista de grande presença em seu país, muito conhecido pelos seus painéis na estação ferroviária do Porto.
O grande painel da Igreja dos Capuchinhos (ler aqui) traz caravelas ao fundo. Desconheço autoria.
O outro de Paquetá e o do Engenho Novo: interessantes em manter a célebre combinação azul e branco para lidar com um dos símbolos do país. Faz sentido.
O do Lins foge exatamente a isso. Na mesma posição dos habituais santinhos, é pouco maior que estes (9 azulejos em vez de 4) e apresenta desabrida policromia.
O de Maria da Graça, do meu querido Igrejas (ver aqui), é também policromado, assim como o do Ingá (no Clube Português).
O seguinte, de Vila Isabel, encima bela casa em estilo neocolonial hispânico / Missões. Pena a foto não ter ficado grande coisa.
Não me ative à distinção entre nau, caravela, galeão, mas é claro que os dois painéis seguintes (o simplezinho do Ingá e o mui elaborado de Vila Isabel) não são uma coisa nem outra. Acho que são faluas. Como as do Tejo, que Teresa Salgueiro cantou.
Há muito que não escrevo sobre whisky no blog (última vez aqui, três anos atrás, sobre o indiano Amrut), embora whisky tenha aparecido de leve no poema que fiz para minha mãe aquando de sua partida ("eu que não tenho calmantes senão o talisker"). Bem, agora que a amiga Juliana me trouxe diretamente de Stirling um Ardbeg Corryvreckan, serão horas de atualizar o assunto.
Corryvreckan é o nome do terceiro maior redemoinho do mundo, situado em águas escocesas, perto da ilha de Jura. Está entre os passeios mais perigosos do planeta. O escritor George Orwell naufragou ali com seu filho de 3 anos em 1947. Quase morreram. Não fosse o resgate, não teríamos hoje 1984.
Dar este nome a um whisky que, em sua expressão habitual, é já incrivelmente defumado, salgado, marinho e turfado, para se referir a um cask strenght de 57,1%, parece-me muito apropriado, no mínimo como que a exortar 'não diga que não avisamos'.
Eu, que de ordinário desprezo como infantis muitas cervejas extremas, muita stout desequilibrada com gosto de pneu, não vejo nada de desnecessariamente extremo aqui. Em que pese a pancada, há, na boca e no nariz, alguma cremosidade e acidez. É ligeiramente mais medicinal que o Ardbeg normal, o que o aproxima do Laphroaig. Notas de couro molhado, madeira e laranja. Um jato de água ou duas pedrinhas são imprescindíveis para domar um pouco a besta.
A besta no mar, no meio do redemoinho.
A embalagem traz duas advertências: "Not for the faint-hearted" (perfeito, e que eu já pensara para o Ardbeg, Laph e Caol Ila) e "No swimming". Faz sentido.
Esta postagem é dedicada à Ju.
PS: Tivesse Orwell sucumbido no maelström, não teria a literatura o 1984. Mas também não teríamos o Big Brother da Globo.... Mas evitemos humor negro, please.
Ainda no espírito das comemorações do bi, segue pequena messe do que tenho recolhido por aí. A presença do C.R. Vasco da Gama nos botequins da cidade é ainda majoritária, dada a origem dos primeiros donos, mas para que não digam que sou clubista, também documento, com muito prazer, os botequins que fazem questão de se mostrar de todos os times (ver aqui e aqui).
Bar Cantinho dos Amigos : Grajaú
Bar do Navega :: São Cristóvão
Pensão Paraíso :: São Cristóvão
idem
Café e Bar Américo Tomás :: Engenho Novo
Bar MK :: Bonsucesso
Bar Araruna :: Piedade
Lanches Jojo da Piedade :: Piedade
Padaria em Abolição
Café e Leiteria Brasil-Portugal ::: Olaria
Adega e Pastelaria Ribeirense - Cascadura
Bar e Mercearia Encontro do Juramento ::: Vicente de Carvalho
A conquista do bicampeonato ontem me traz à mente lembranças muito vivas de outro bi, o de 1988. Por diversos motivos.
Em primeiro lugar, foi o único jogo em toda a minha vida em que fui de geral. Explico: naquela noite eu tinha apresentação de seminário na UERJ, onde cursava Psicologia, e eu convidara ninguém menos que representantes do grupo Tortura Nunca mais para exibir um filme (que acabou não acontecendo devido a problemas técnicos) e debater. Em que pese a não-exibição, o debate foi um sucesso e, registre-se, Cecília Coimbra, a então presidenta do TNM fora presa e torturada enquanto estudante de Psicologia. De lá, voei para o Maraca e, após rápida conversa com 2 PMs, eles franquearam-me a entrada. Eu nem sabia pra onde! Quando vi, estava na geral. A tempo de xingar o Renato Gaúcho, ver o Cocada entrar, fazer um golaço, tirar a camisa e ser expulso.
Eterno.
O vídeo é interessantíssimo. Estão ali, do lado do bom time rubro-negro, Bebeto e Renato Gaúcho. Aquele seria campeão com o Vasco no ano seguinte, enquanto que este quase o foi como técnico, muitos anos depois. Estão ali também Zinho e Jorginho, campeões pelo Vasco ontem. As tais das voltas que o mundo dá.
Do lado vascaíno, Acácio, Paulo Roberto, Zé do Carmo, Mazinho, Vivinho, Romário. Um ótimo time, que faria um ótimo brasileiro.
Ah, e o Cocada.
Reparem que o seu gol foi, realmente, fantástico. No meio de quatro jogadores, ele não passou a bola para o Romário. Incrível. Se calhar, entra sem favores na lista dos 10 mais do Vasco de todos os tempo, e não apenas pelas circunstâncias.
Já estou com caquinho aqui para mais meia dúzia de postagens, mole. O que tenho encontrado de coisa interessante por aí....
Na postagem mais recente (aqui) procurei privilegiar casos em que os caquinhos, quase quase sempre vermelhos pretos e amarelos, recusam-se a ser apenas piso. Ora acho digno privilegiar interessantes casos em que os caquinhos compõem muros, em Todos os Santos e em Paquetá, aqui figurativos. Em ambos os casos, são de cores para além das já comuns citadas.
Todavia, mode não perder viagem, um pouco mais do mesmo, que nunca é o mesmo: piso de caquinhos nas cores triviais mas em lindos padrões no bairro de Ipiranga, Sampa.
"Sofro por causa do meu espírito de colecionador-arqueólogo. Quero pôr o bonito numa caixa com chave para abrir de vez em quando e olhar." (Adélia)
Há quase um ano escrevi sobre Celino, pintor de azulejos, aqui. Nestes dez meses novas ótimas descobertas.
Em Vila Isabel um pequeno painel de temática religiosa : 12 azulejos de cores muito vivas e singela moldura de pastilhas. No Lins um painel maior, de 35 peças, com a habitual e pitoresca paisagem de gosto escapista, tão comum também nos Irmãos Igrejas. Tudo indica que pertencia a uma casa recentemente posta abaixo. Oxalá o espigão ao menos mantenha o painel.
E a coisa só melhora: em manhã de frustração (sobre a qual escrevi aqui), descobri na Tijuca (ou Vila Isabel ou Aldeia Campista que ali nem os moradores precisam o que é) dois pequenos painéis que fogem às habituais temáticas religiosas ou paisagísticas: um de peixes e outros seres do mar e o segundo uma paisagem sim, porém inglesa, com seu indefectível cottage / inn de thatched roof (não dá para traduzir por casinha de sapê). Celino revela aqui técnica para além do naïf, na palheta de cores e no uso do pontilhismo. Duas pequenas joias, insolitamente emolduradas por pedras São Tomé.
E, por fim, um imenso painel no edifício Monterey, no Flamengo de quase mil peças. Tudo é incomum: a dimensão, o uso exclusivo da cor ocre, a temática (algo como as maravilhas do progresso) e mesmo a localização. Não se espera um painel desses em uma prédio de apartamentos. Lamentável apenas o esforço dos condôminos em obstruir a visão.
De quebra, segue um painel de Paquetá. Não está assinado, mas com jeito de Celino.
Saí de casa não em busca dos habituais azulejos, botequins, pisos, casinhas e outros que tais, saí de casa em busca de um campo de futebol. Não qualquer um, mas aquele que pertencera a dois times do subúrbio carioca: o Adélia e o Engenho de Dentro e em cuja inauguração como estádio deste, em 7 de setembro de 1946, o Vasco derrotara o Flamengo por 4 a 2. Pelo que consegui apurar, o campo ainda existia e servia como local de peladas.
Cheguei com dois anos de atraso. Um grande condomínio feioso (não merece sequer registro) soterrou esse quinhão da história do futebol carioca. Uma lástima.
A Rua Henrique Scheid situa-se hoje na sombra do Engenhão. Não causa espécie que a construção do estádio (no terreno onde havia o esquecido Museu do Trem) tenha dado ensejo à especulação imobiliária do entorno. Possivelmente há quem goste e se beneficie disso. Bem, hoje o próprio Engenhão encontra-se precoce e criminosamente abandonado. E eu preferia o campo do Engenho de Dentro E.C. ao feio condomínio. Mas claro que, trocadilho inevitável, numa cidade há anos fadada à verticalização, que agora atinge áreas até então preservadas, algo essencialmente horizontal como um campo de futebol não haveria de sobreviver.
A manhã de 7 de setembro de 1946 bem como as milhares de peladas dos finais de semana permanecem vivas nas memórias de São João Batista, Santo Antônio, São Sebastião, São Cristóvão e São Francisco de Paula, espectadores (e torcedores) privilegiados do alto de suas platibandas.