Thursday, March 17, 2016

A Festa de Babette no Dona Irene pt. 2

Hisbello

Mikhail Flegontovich Smolianikoff (em bom brasileiro, Miguel) e Eupraxia Wladimirovna Smolianikoff (Irene), já chegaram ao Brasil com idade avançada. Quando abriram o Dona Irene em 1964, contavam 70 anos. Claro que já não andam entre nós, em que pese certa proverbial longevidade georgiana. Porém, Hisbello, o octogenário pernambucano de Madre de Deus, e que sugeriu ao casal a abertura do restaurante, não apenas anda como senta-se à mesa para entabular conversa.

Hisbello proseia como poucos. 

O casal que desejar jantar romântico com troca de juras de amor eterno pode achar suas conversas meio over. Como ele só nos abordou no final (enquanto comíamos, ele visitava nosso vizinhos de mesa), não temos do que reclamar. Muito pelo contrário.






Wednesday, March 16, 2016

A Festa de Babette no Dona Irene



Fiz postagem bobinha no facebook no sábado dia 12 de março com foto da Camila onde se lia: "Esperando as gloriosas manifestações do dia 13 bebendo vodka artesanal no restaurante russo". Tentei postar algo com bom humor, item escasso nas discussões políticas, demonstrando que não acredito nessas manifestações anti-corrupção e que, sim, sou de esquerda (restaurante russo). Piadinha que, claro, tira sarro de boa parte dos manifestantes que creem que Dilma é comunista e acreditam na ameça real do comunismo albanês se instalar entre nós.

Mas a piadinha é, tecnicamente, falha.

Porque Mikhail Flegontovich Smolianikoff (que aqui virou Miguel) e Eupraxia Wladimirovna Smolianikoff (que virou Irene), "russos" na verdade siberianos, emigraram do seu país natal justamente fugindo do sistema de governo instalado após a revolução de 1917. E a refeição, em verdade um banquete, que servem seria, portanto, um banquete da aristocracia czarista! Ou seja, tudo ao contrário! Se fosse pela coerência total, chata, um tijucano daqueles bem reaças, ou um reaça daqueles bem tijucanos (sem preconceito!, que me perdoem Trajano e Eduardo Goldenberg!) é que deveriam ir para o restaurante, se fartar de varênique, melar a cara com a manteiga quente do frango à Kiev e postar no face com os dedos encharcados de vodka: "No restaurante czarista, esperando Moro restaurar o Ancien Régime."

Agora é sério :: uma refeição na Dona Irene, aonde eu sonhava em ir desde 1992, é um acontecimento, a lifetime experience. Eu, que detesto vodka desde um porre aos 14 anos, bebi da geladíssima artesanal, feita por eles mesmo, sem fazer careta. As entradas infinitas são divinas e o borsch de beterraba não é o espartano que Stalin queria que os soviéticos comessem : leve, leva creme de leite. Os pratos principais e as sobremesas são como zepelim de chumbo: extremamente consistentes, mas voam.

Impossível não lembrar do final deste que é um dos mais lindos filmes, A Festa de Babette. Não é A cena final, quando Babette revela sua verdadeira identidade às incrédulas irmãs, porém aquela em que os convivas, leves e abençoados depois da gloriosa refeição, e apesar das farpas trocadas entre eles, dão-se as mãos e dançam em roda qual crianças. Velhos felizes sentindo-se eternos de mãos dadas dançando qual crianças.

Aleluia.




Tuesday, March 15, 2016

Painel Azulejar em Teresópolis



Numa rua do bairro de Agriões, a caminho do caldo de piranha no Caldo de Piranha (aqui), este soberbo painel azulejar de 208 peças, com motivos indígenas, de cariz romântico tardio, neste caso quase que indissociável da literatura. Não se vê, no entanto, Ceci ou Peri, mas uma caçada. Com efeito, a obra é uma cópia muito bem executada da gravura "Caça à Onça", de Rugendas (obrigado, Glaucia Santos Garcia). O azul e branco, tão frequente na azulejaria portugesa mas incomum nos paineis naïfs brasileiros, ajuda a ocultar o sangue da fera, de vez que a flecha já foi lançada. Folhas cobrem as vergonhas dos índios, cuidado que, vejam que interessante, Rugendas, na primeira metade do século retrasado, teve em menor escala.

Não pude adentrar o quintal, sendo impossível checar possíveis assinaturas no canto inferior direito. Pena.

O pequeno prédio atende por Guarany. Faz sentido.

Reforçando: um prédio simples, quase austero, sem qualquer sofisticação. Sei que cada época com a sua estética, mas havia ou não um capricho maior?




Rugendas (1835)

Monday, March 14, 2016

Fui atrás daquela piranha



A primeira piranha que comi foi no Restaurante do Egnaldo, em Pirapora, às margens do São Francisco, em viagem que seguia os passos de Riobaldo Tatarana. Eu era duro, duro de contar moedinhas, e senti-me muito próspero ao poder sentar-me num estrelado do Quatro Rodas. Tomei duas cervejas e mastiguei vagarosamente como se cada pedacinho fosse um naco de ambrosia do céu. E, de certo modo, era.

Muitos anos depois, dir-se-ia outra encarnação, peguei o trem para Marechal Hermes numa tarde de sábado para visitar a Adega Tudo do Mar. Naquela hora, entre lobo e cão, só tinha eu lá. Eu e a cabeça de onça. Tomei o caldo, lambi os beiços e, cheio de vigor, passei as próximas horas tirando fotos daquela arquitetura maravilhosa e dos botequins incríveis.

Finzinho do ano passado, foi o caldo da Casa do Norte, no Butantã, terra de cobras. Estava frio, ralo, sem graça, mais sem graça que dançar com a irmã. Melhor esquecer.

E no último finde subi a serra atrás do caldo de piranha do.... err, Caldo de Piranha, em rua calminha de Teresópolis. A iguaria sai por 5 pratas. Vende mais que bolo quente. Paga a viagem.


Tuesday, March 08, 2016

A Coleção Invisível



Curiosa a leitura que o cineasta franco-baiano Bernard Attal faz do conto "A Coleção Invisível" de Stefan Zweig em seu filme homônimo. Há altos e baixos, mais estes que aqueles. Transportar a diegese da espiral inflacionária da República de Weimar para a decadência da região cacaueira do sul da Bahia é ponto muito positivo, que causará indignação apenas aos tolos sem imaginação. O problema está no elenco muito fraco (usar não-atores pode dar muito certo, como no neo-realimso italiano, mas pode também ser constrangedor) e na forçação de barra indesculpável que tem que necessariamente fazer com que role um affair entre o herói e a jovem que antes o repelia ferozmente. Outro problema está em toda a tragédia inicial da película, que se encaixa no enredo (e isso independentemente de confronto com o conto) como Pilatos no Credo.

A cena central, no entanto, em que o "colecionador" inescrupuloso (em Zweig, um colecionador de verdade) enfim trava contato com a coleção invisível do velho cego, funciona bem no filme, a ponto de justificar sua epifania. Gostei disso. Adorei também as tomadas da Itajuípe decadente, sobre a qual voou a vassoura-de-bruxa.

Camila mesma teve avô visitado pela Bruxa, que tudo lhe tomou: primeiro as colheitas e logo a vida, num câncer de garganta devastador.

Walmor Chagas, ator que desempenha o velho cego, estava de fato quase cego. E se suicidou pouco depois.


Friday, March 04, 2016

haikai só para leminski



leminski
me lê
em minsk

Non mi rompete





Sempre tive para mim que, quando a indesejada das gentes me chegar, eu teria minhas cinzas espalhadas por São Januário. Ou talvez Milho Verde ou quem sabe Viscri.

Agora o Museu dos Açudes entra para o rol das dúvidas.

Aqui um amante de azulejos passa boas horas e não seria mal passar eternidade.

"Non mi rompete" é canção linda do terceiro disco do Banco.

Também cabe o verso final de um soneto da série do Vale do Capão: "se eu dormir, deixa; se eu morrer, me acorda". 





Non mi svegliate ve ne prego
ma lasciate che io dorma questo sonno,
sia tranquillo da bambino
sia che puzzi del russare da ubriaco.
Perché volete disturbarmi
se io forse sto sognando un viaggio alato
sopra un carro senza ruote
trascinato dai cavalli del maestrale,
nel maestrale... in volo.

Non mi svegliate ve ne prego
ma lasciate che io dorma questo sonno,
c'è ancora tempo per il giorno
quando gli occhi si imbevono di pianto,
i miei occhi... di pianto. 

Thursday, March 03, 2016

Os meus vizinhos têm caras feias

Bosch


Os meus vizinhos têm caras feias. Não cumprimentam, não cedem passagem, grunhem coisa e outra no elevador. Tudo isso porque deixo alguns brinquedos do Dante no play, quais sejam: uma bicicleta de rodinhas, um pneu velho, uma corda e uma bola grande, dessas de Pilates. Dante e eu nunca os deixamos espalhados pelo play, pelo contrário: ao fim da tarde, ter que guardá-los um a um num certo cantinho é já um pequeno ritual tão importante para aqueles com dificuldades de se organizar. Um dos frutos já veio: em conversa com a professora da sua ex-escola, esta me diz que Dante por vezes era a única criança que ajudava a arrumar as cadeiras depois das atividades.

Voltando aos vizinhos: têm caras feias, muito feias, e isso por causa dos brinquedos deixados num cantinho do play. Aqui esclareço: não os deixo lá por comodidade ou preguiça, mas sim porque me seria bastante difícil ter que descer e subir sozinho com a bicicleta e o Dante (às vezes batendo a cabeça nas paredes) todos os dias pelo elevador. Com o pneu e a bola, então, impossível. Deixá-lo lá embaixo e subir para pegar os demais objetos, criminoso.

Por isso deixo os objetos no play, deixamos. Num cantinho. E os vizinhos fazem caras feias. Já me ameaçaram inúmeras vezes com "sanções pecuniárias" por meio da administradora do condomínio.Chegaram a instar o zelador a retirar os objetos e deixá-los à minha porta. (O Fernando, sempre carinhoso com o Dante, descumpriu a ordem.) Houve dia em que encontrei o velocípede (que havia antes da bike) quebrado. Ambos os procedimentos parecem-me dignos das melhores técnicas de gas-lighting empregadas pelas ditaduras comunistas na segunda metade do século XX. Quem leu Herta Müller, que certa feita deparou-se com um dedo, um dedo humano, em sua bolsa, entenderá.

Apenas uma vez um deles veio conversar comigo, novamente ameçando de multa e dizendo imagina se cada um decide deixar alguma coisa no play. Repondi-lhe que se um dia sua mãe estiver com Alzheimer, serei o primeiro a aceitar que uma cadeira de rodas fique no play, se for o caso, se for necesário.

Aquando da primeira ameaça de multa, pelos objetos deixados nas áeras comuns e pelos objetos atirados pela varanda (um e outro lápis de cera, nada de pianos), respondi-lhes com uma carta, uma carta para cada apartamento, explicando a situação, explicando o que era autismo, convidando-lhes a visitar o Dante, caso quisessem.

Ninguém apareceu.

Tenho momentos de revolta, claro. Mas fico sobretudo perplexo. Imagino um desses vizinhos sentado em seu sofá de noite assistindo ao Jornal Nacional. De cara feia, muito feia, ao lembrar que num cantinho do play estão uma bicicleta verde-limão, uma bola vermelha, uma corda e um pneu velho.

Tuesday, March 01, 2016

Limeriques para as Perguntas do Neruda

Isidro Ferrer


Dando continuidade ao pequeno e despretensioso e divertido (ao menos para mim) projeto que consiste em escrever limeriques a partir das perguntas do Neruda de seu Livro de Perguntas. A explicação e os primeiros limeriques estão nesta postagem aqui.

O livro de Pablo tem 74 partes / estrofes que contém, naturalmente, inúmeras perguntas. Ative-me àquelas feitas em um único verso, que me serviram como mote.

Perguntas como as encontradas na estrofe 63, e que são a maioria, estão de fora:

"Como se combina com os pássaros
a tradução de seus idiomas?

Como dizer a tartaruga
que a supero em lentidão?"

Com o intuito de ter mais trabalho, glosei também as "perguntas-duplas", que são bem raras, como estas da estrofe 58:

"E o que pulsava na noite?
Eram planetas ou ferraduras?

"Que me esperava em Isla Negra?
A verdade verde ou o recato?"

Nestes casos, aproveitei apenas a primeira pergunta.

Faltam apenas 5.

Seguem os limeriques ::::



1.
E é paz a paz da pomba?
Ou ela carrega uma bomba?
Perguntei pro Dante
Depois pro elefante
Que inquieto meneou a tromba.

2.
Quantos anos tem Novembro?
Perguntou-me, sério, Setembro
Dei-lhe uma resposta
Dessas que tu gosta
Mas agora, véi, já não lembro.

3.
Não é melhor nunca que tarde?
Pergunta Pablo com alarde
Nunca é muito longe
Não sou nenhum monge
Eu quero é tudo, inda que tarde.

4.
Onde fica o centro do mar?
Também eu quero perguntar
Não é no Butão
E nem Quirguistão
Mas não morro sem encontrar.

 5.
O 4 é 4 para todos?
Talvez o seja para os bobos
E vejam vocês
O 3 e o 6
Acham que tudo isso é engodo.

 6.
Para onde vão as coisas do sonho?
É pensamento bem medonho
Olha, faz assim
Como o teu quindim
Depois se preocupa com o sonho.

 7.
Onde está o menino que eu fui?
Perguntei ao Barbosa Rui
Que me disse sério
Com voz de mistério
Está em tudo aquilo que flui.

 8.

A fumaça fala com as nuvens?
Roça nela suas penugens?
Coisa mais sem nexo
Melhor fazer sexo
Se agora fico nu, tu vens?

 9.
E o que pulsava na noite?
O que se dançava na boite?
Fim do limerique
Quase vai à pique
Á falta de rimas em –oite

Madureira 1 X 0 Macaé



Em Conselheiro Galvão no verão não tem joguinho morno. Todos jogos são quentes, quentes a ponto de fazer com que a Ultras, formada por esbirros cheirando a cueiro, abandonem seu posto em busca de um lugar à sombra. Não raro mais de um lateral esquerdo quer virar ponta direita em busca do pequeno troço ensombreado do gramado.

E o Tricolor Suburbano conquista mais três pontos, rumo à classificação.

E o melhor mesmo foi invadir as sociais, pular a mureta, levar um esporro do segurança, mas tirar foto com Carlos Germano no intervalo.











Friday, February 26, 2016

Lins de Vasconcelos



O Lins é um bairro esquisito. Você, que vem de carro ou ônibus, perde fácil. De trem, pior, ainda. Depois que passa o Antigo Zoológico, é Engenho Novo e depois já é Méier. O Lins é por dentro. Só o 232 te leva lá direitinho.

E não é que lá, provavelmente por isso mesmo, ainda encontramos joias de botequins?

Mas as fotos dos botequins ficam para a outra postagem. Agora só os paineis de azulejos, o piso de caquinhos com estrelas cadentes, o céu muito azul etc.