Friday, February 05, 2016

Tem Índio na Platibanda



Estão lá os santinhos de sempre, no grupo de quatro azulejos na platibanda, fazendo as vezes de orago da casa. Estão lá o indefectível São Jorge, a onipresente N.S. de Fátima, São Sebastião, o Sagrado Coração de Jesus e, sendo Paquetá, São Roque. Também encontram-se conjuntos de azulejos não-figurativos, sobretudo em construções do estilo neocolonial hispânico, o que, arrisco dizer, parece demonstrar desejos de uma burguesia que preferia não se aferrar ao passado colonial (santinhos = Portugal), lembrando que o estilo colonial hispânico, também conhecido como Missões, chegou-nos via Estados Unidos, no pós-guerra.


Mas o que mais amei mesmo foi a cabeça de índio tamoio na platibanda daquela casa. Será o Cacique Guaxaitá? Terão mesmo os tamoios habitado a Ilha das Pacas? Isso é preciosismo.

A cabeça está lá. Único busto de índio em platibanda encontrado até hoje na cidade.

Dom Pedro II disse que só o Caraça pagava toda a viagem a Minas. Parafraseio: só a cabeça altiva do índio paga todo o passeio a Paquetá....






Bem, verdade que em Tomás Coelho encontrei também este soberbo painel aqui.....


E em Higienópolis este aqui, provavelmente um Igrejas, mas em péssimo estado de conservação ::


Wednesday, February 03, 2016

A (Última) Partida de Stefan Zweig

Tabuleiro de Stefan Zweig


Não são poucas as referências ao xadrez na casa de Stefan Zweig em Petrópolis. Casa onde ele e sua mulher Lotta viveram por apenas cinco meses, de setembro de 1941 a 22 de fevereiro de 1942, quando o casal cosuma seu pacto de morte.

Não poderia ser diferente. Zweig era enxadrista, daqueles diletantes sérios. Dentre seus pouquíssimos objetos pessoais hoje encontrados na casa, seu tabuleiro. Um dos poucos livros seus era justamente um compêndio em que o grão-mestre russo Tartakower comenta 150 partidas do início do século XX. E na casa, que ele chamava de bangalô, escreve seu último texto, a novela "Xadrez".

A história, fascinante, com o mérito já de lidar abertamente com os horrores da guerra e do nazismo no olho mesmo do furacão (algo assim, digamos, como a quinta de Prokofiev e a sétima de Shostakovich) tem personagens soberbamente construídos e uma tensão que lembra O Jogador, do Dostoievski.

Mas queria -- eu que tenho horror à crítica biográfica e não insinuo tal cousa aqui -- era fazer certa analogia. Sabe-se que numa partida de xadrez entre dois jogadores experientes dificilmente haverá xeque-mate. Quando o jogador se vê encurralado, quando ele sabe-se irremediavelmente encurralado, simplesmente abandona o jogo. Daí, em descrições de partidas, ser tão comum o "pretas abandonam" ou "brancas abandonam".

Não foi exatamente o que Stefan e Lotta fizeram?

"Saúdo a todos os meus amigos! Que ainda possam ver a aurora após a longa noite! Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes."

Varanda da casa

Quintal

Tuesday, February 02, 2016

Dois Lindos Paineis Azulejares do Méier



Dois lindos paineis de 48 peças cada, de uma horizontalidade incomum. Possuem uma moldura "falsa" branca, posto que no próprio painel, e uma cercadura verdadeira, a cargo daquelas "tripas" pretas. Os paineis estão dispostos sobre parede azulejar verde piscina, por sua vez emoldurada por cobogós e azulejos enxaquetados bicolores (brancos e pretos, cuja rara presença em botequins foi tratada aqui).

Para quem se encanta com esses boabagens... what a sight.

Encontram-se no quintal de uma casa do Méier, talvez fosse mais apropriado falar em garagem.

Os donos da casa me garantiram que são obra de loja de material de construção que havia na esquina. No canto inferior direito de um deles li Claudio / Casa Luzes.

Percebe-se que o desenho do templo no lago (será o Templo Dourado dos sikhs na Índia??) é absolutamente o mesmo do encontrado há dois anos num painel da Tijuca, onde havia como "assinatura" "Cerãmica Brasileira / Irmaõs Silva / 1963 (ver o post aqui).




João, taxista aposentado, dono da casa

morava num painel desses, fácil

fácil




Painel em edifício da Tijuca

Friday, January 29, 2016

A mãe do Dante



Meu Dante se chama Dante por causa do Dante, claro, e por isso não canso de voltar à obra e à vida do rebelde poeta florentino.

Assim descubro cousas notáveis sobre a mãe do Dante. Seu nome era Beatrice Bella, provavelmente um membro da família Abati. Quando Dante era ainda muito pequeno, andava pelos quatro anos, ela e seu marido Alaghiero di Bellincione separaram-se, não sei bem o motivo, sabe-se que ele era guelfo, talvez fosse ela guibelina. 

Ao contrário do que era voga na época, a segunda metade do século XIII, o pequeno Dante ficou com o pai, para grande alegria deste que muito o amava. Lembremos que o guelfinho apresentava comportamento bastante diferente de seus coetâneos: custou para interagir com o mundo à sua volta, demorou para andar, apresentava limitações motoras, não falava, tinha grandes crises de ansiedade. Tais dificuldades, no entanto, não pareciam sensibilizar muito Beatrice, que faltava às visitações estipuladas pelo Judiciário de Florença e depositava o valor da pensão errado. Beatrice Bella chegou mesmo a pleitear horário especial em seu trabalho (lecionava toscano em um guilda de artífices) por conta do filho, embora, lembremos, ela não ficasse com ele senão pouquíssimos dias ao mês.

Alaghiero contraiu bodas pela segunda vez, desta feita com Lapa Chiarissimo Cialuffi. Bella, há grande divergência nas fontes aqui, parece que enrabichou-se com um segrel de Ravena.

Beatrice de tudo fazia para ficar cada vez menos com o pequeno Dante. Na sociedade, entretanto, posava de dama virtuosíssima, tanto que, nas poucas vezes em que ficava com o pequeno, fazia questão de ter seu retrato pintado junto a ele, para que assim pudesse exibi-lo pendurado ao pescoço.

Vejam que falta fazia o Facebook.

Thursday, January 28, 2016

Bodas de Trigo.com.blog



Quando Camila e eu completamos nossas bodas de trigo (aqui), o desejado seria comemorá-las com a presença, pequena que fosse, do cereal. Pensamos em descer para padaria e pedir média quentinha com pão e manteiga ou esconder-nos em um vasto trigal ou, claro, brindar com a Marechal, a deliciosa witbier, ou a Araxá, a Weiss, ambas da Cervejaria Grajaú.

Como diria o Bandeira : está certo, está tudo muito certo.

Mas o negócio é que, como nos conhecemos graças a este bloguinho (Camila pesquisava sobre a Turid e encontrou postagem que eu fizera três anos antes), houvemos por bem comemorar mesmo com o blog, estupendo vinho alentejano do Tiago Cabaço, que gosta de usar varietais clássicas purtuguesas, como a Touriga Nacional, junto a Cabernet e Syrah.

Os tradicionalistas, terroiristas, tiram as calças pela cabeça. Enquanto isso, bebamos. Lembrando que foi com misturas assim que nasceram os supertoscanos.

Acho que o vinho não acompanhou meu risotto de shitake com pera. O risotto é que acompanhou o vinho.

E viva o Blog!

PS: Cabaço produz também um .com


O Livro de Perguntas-Limeriques

Isidro Ferrer


Mencionei recente o Livro de Perguntas do Neruda neste post aqui. Poi zé. Este livro lindo, cuja primeira edição, póstuma, se deu na Argentina em 1974, já que aos gorilas assassinos chilenos não interessavam as perguntas do Pablo, teve já suas respostas.

Uma delas consistiu em concurso entre crianças chilenas :: aquela que desse a melhor resposta ganhava uma visita à Sebastiana (aqui), casa do Neruda em Valparaíso. Outra resposta veio do poeta potiguar Diógenes da Cunha Lima, que escreveu todo um Livro das Respostas. Em outra ainda, Isidro Ferrer fez belas colagens, em que mistura o poeta palavras fantasia.

Eu gostei dessas ideias todas, ainda que, ao menos no caso dos chicos, ache mais interessante que elas formulem novas perguntas em vez de tentar respondê-las.

Pensei outra coisa: no caso das perguntas formuladas em um verso apenas (e que são a minoria no livro), usá-las como mote para um limerique. Em outras palavras, escrever um limerique usando a pergunta como primeiro verso.

As perguntas do Livro de Neruda são todas em octossílabos, que julguei necessário manter. Os versos interiores, necessariamente mais curtos, são redondilhas menores, o que para mim é grande dificuldade.

O metro desses limerique, portanto, são diferentes dos Limeriques para o Dante (decassílabos e redondilhas maiores). O esquema de rimas, claro, é que não pode ser alterado jamais, sob pena de grande consternação celestial. Estas devem ser AABBA.

Mas para que tanto blablablá. Limerique é coisa leve. Seguem os primeiros.


Quantas igrejas tem o ceú?
Perguntei ao Seu Manuel
Ele mora lá
Mas não vai contar
Quantas igrejas tem o céu.

Quantas perguntas tem um gato?
Indaguei à Isolda no ato
Que para mim olhou
E fundo suspirou:
Aff Maria, que cara chato!...

Todos os setes são iguais?
Perguntou-me o velho rapaz
Quem isso sabia
Acho que era a Lia
Mas agora não sabe mais.

Quem nunca viu o aloé?
Queria saber Primo Zé
Olha, meu amigo,
Se fosse comigo
Eu ia tocar oboé.

Quantas abelhas tem o dia?
Perguntou-me Dona Maria
Como é abelhuda
Magra e pescoçuda
A curiosa Dona Maria.


"Aff Maria!...."

Tuesday, January 26, 2016

Haikai Húngaro







Em Cuzco
Puskas
toma pisco


Sunday, January 24, 2016

Concerto para Dois Pianos de Prokofiev



O pequeno repertório de concertos para dois pianos e orquestra (Mozart, Mendelssohn, Poulenc, Vaughan Williams, Stravinski, Bartók) ganhará em breve a companhia ilustre de Prokofiev, no que para mim já é, para o bem ou para o mal, um dos acontecimentos da música erudita do ano. 

Trata-se de um novo concerto para piano de Prokofiev, no caso o sexto, e para dois pianos e orquestra de cordas apenas. Lo que pasa es que Prokofiev morreu há pouco mais de 60 anos.

Bem, o mestre russo deixara uns esboços da obra, que agora foi "completada" por um professor canadense e por seu neto, Gabriel Prokofiev, aquele que já escreveu concerto para DJ e orquestra.

O caso que me vem à mente é, claro, a décima de Mahler. Tenho mixed feelings. E estou curioso.  A estreia mundial será dia 27 de fevereiro.

(Alguém irá compor os movimentos finais da Inacabada do Schubert?)

Segue o primeiro movimento do lindo concerto para dois pianos do Vaughan Williams. E o concerto para DJ do Gabriel Prokofiev.




Saturday, January 23, 2016

Azulejaria Popular ::: Os Paineis de Santos dos Irmãos Igrejas


Méier


Na primeira postagem que fiz acerca da azulejaria popular dos Irmãos Igrejas (aqui), lembrei que Manoel e António não tinham por hábito assinar os pequenos paineis compostos por quatro azulejos, quase sempre dispostos como losangos, então implantados na platibanda da casa.

Arrisco duas explicações: a pequena dimensão da obra e o fato de talvez eles não enxergarem ali algo realmente artístico, autoral. Com efeito, a produção era grande: em depoimento de 1990 calculavam já terem executado para mais de 30 mil dessas peças desde a chegada ao Brasil, o que dá, roughly, média de quase duas peças (duas peças de quatro azulejos!) por dia!

Não é pouco.

Dia desses, no entanto, encontrei linda Nossa Senhora Aparecida (em pessoa) no Méier em um painel onde meus olhos míopes juram ver a assinatura de um Felix Igrejas. Ressalte-se que o painel é composto por nove peças.

Parece então que só assinavam paineis de santos quando estes eram maiores que os quatro habituais (caso da Aparecida do Méier e do São Jorge de Campo Grande), mas isso está longe de ser regra, haja vista o São Sebastião, a Nossa Senhora da Penha, a de Fátima, o São Jerônimo, dentre outros, exemplificados aqui. Mas como, então, posso afirmar que esses paineis são de autoria dos Igrejas, mais provavelmente do António? Simples: pela sua característica moldura fitomórfica alaranjada.

A moldura, portanto, fazendo as vezes de assinatura. Hipótese interessante.

Honório Gurgel

Penha



Penha

Olaria

Olaria

Ramos


Campo Grande (assinado) Foto de Flavio Paschoal

Brás de Pina (assinado)



A característica moldura em painel secular de Ramos

Soneto de Fios sobre Volpi



Um pouco (só um pouco) na cola daqueles do Avelino de Araújo (sobre quem escrevi aqui), segue meu Soneto de Fios sobre Fundo Volpi.

Reconheço os tercetos mais claros que os quartetos.

O Lar da Felicidade fica no Santo Cristo, aos pés do Morro do Pinto (here)

Friday, January 22, 2016

Casinhas do Subúrbio

Madureira


Claro que gosto de me deparar com aquele sobrado senhorial com alpendre e azulejos. Mas aqui apenas casinhas. Nem porão alto entra. Estilo missões entrou. Mas as que melhor ilustram o verso do cummings são as azuis de Madureira e Penha.


"i am a little church (no great cathedral)"



Bonsucesso

Cascadura

Cascadura

Encantado

Engenho de Dentro


Lins

Méier

Penha

Pilares

Quintino

Santa Cruz

Vila da Penha
Irajá