Monday, January 25, 2010

Presente atrasado é bom



Engraçado que eu recém-falara de presentes por aqui, os do niver do Dante. Bem, ontem ele ganhou um atrasado, mas não tão atrasado assim, pois não era de aniversário e sim de Natal. (Grande diferença... de apenas seis dias.) Quem deu foi o Gustavo, seu futuro técnico de futebol.

E presente bom é assim: traz sorte, muita sorte. Mal eu e Dante abríramos o presente, que é daqueles que se podem abrir muitas vezes, levanto os olhos para o monitor e... Vasco 1X0. No final, foi o que foi... Vascão 6X0!

Gustavo, Dante e eu queremos presentes assim todo domingo! E às vezes às quartas (ou quintas) também!

Perceberam que a frase anterior tem ambiguidade? O termo "Gustavo" (ih, Gustavo, você virou termo) é vocativo ou um dos núcleos do sujeito composto???

O Carinho de Clara, o Carinho de Emília


Teve um post aqui em que desci o malho nos médicos, profissionais (quando o são) amiúde surdos ao sofrimento alheio. É verdade que o ser humano é amiúde surdo ao sofrimento alheio, mas isso fica mais visível quando o sujeito deveria, digamos, cuidar deste sofrimento. Continuo desejando-lhes, de coração, uma eternidade tranquila, que a terra lhes seja leve, com o Corcovado por cima e o Pão de Açúcar de quebra.

Isso não significa que todos os profissionais de saúde se encaixem nesse deplorável time. Encontramos nas fisioterapeutas Emília e Clara (não são médicas, com muito orgulho) profissionais tremendamente competentes, responsáveis e carinhosas. E como quem beija meus filhos minha boca adoça, dedico este postizinho aqui às duas. Emília vê Dantuca três vezes por semana, duas aqui em casa, uma em sua clínica em Icaraí, onde ele pode se balançar à vontade.

Sunday, January 24, 2010

Adagio Assai

O Ravel tem dois concertos para piano: o primeiro em Ré, o segundo em Sol maior (êpa, igual ao que escreverei para as cigarras!), ambos compostos concomitantemente, final dos anos 20, começos dos 30.

A peculiaridade do primeiro é a de ser para mão esquerda, encomendado que fora por Paul Wittgenstein (sim, o irmão do Ludwig filósofo), que perdera seu braço direito na guerra.

(Aqui, duas semelhanças com Prokofiev. Prokofiev também tem um concerto para piano em Sol maior, o quinto. E também tem um só para mão esquerda, o quarto, encomendado pelo mesmo Wittgenstein que, no entanto, nunca o tocou por nunca entendê-lo.)

Voltando ao Ravel, a peculiaridade do segundo é a de ter um dos mais lindos movimentos de toda a literatura pianística do século XX, o Adagio Assai. O concerto é todo ele muito bonito, energético, vivaz, cheio de harmonias e idiomas jazzísticos, algo incomum na música erudita.

Mas é o segundo movimento que me deixa completamente atordoado. Se tiverem um tempinho, assistam a ele no youtube, não dura nem um décimo de uma partida de futebol. Tentei muito postá-lo aqui, contei mesmo com o auxílio de uma colega blogueira, mas sem sucesso.

http://www.youtube.com/watch?v=OsoSvHdcCv0

Quem toca é a Martha Argerich, grande pianista argentina, amiga do nosso Nélson Freire, o que por si só já seria notável, já que o Nélson é daqueles tímidos drummondianos que beiram o patológico. Ela também é bastante fechada, o que talvez explique a amizade entre os dois, bem como sua não tão grande projeção no cenário internacional. No filme em homenagem ao Nélson aparecem os dois em conversa, ensaiando (eles falam!).

Tão logo eu e Ana Beatriz começamos a namorar, em 1993, levei-a para assistir a este concerto no Municipal, fazendo questão de chamar sua atenção para seu insólito início, uma "chicotada".

Depois fizemos amor tantas e tantas tardes tendo como fundo este segundo movimento. Era isto ou era Lir, do Wim Mertens. Mas se alguém aí disser que é música de motel leva um sopapo!

Friday, January 22, 2010

Eu, Caim ou Poema todo ele amargo


Assistir a meu filho tendo espasmos
é mastigar os ossos desta tarde
quente, estúpida, toda ela tétano
a enrijecer-me o peito. Sem alarde,

impotente, anti-herói, decido apenas:
não gritarei em direção aos céus.
Baixo os olhos, molhados, cerro os punhos
e, qual Caim, me engalfinho com Deus.

Thursday, January 21, 2010

Danteivid Bowie

Dantuca amou todos os muitos presentes que ganhou no aniversário. Até hoje, passado um mês da festa, a gente se surpreende com eles. E, claro, brinca um bocado. Na foto, o mocinho veste um desses presentes, na verdade estreia-o antes de ir para a fisio.
Quem, quem senão o Raul iria encontrar um camisa do David Bowie anos 70 (fase Aladdin Sane / Ziggy Stardust) tamanho 1 ano? Só mesmo um parceiro de garimpagens musicais, tipo aqueles que fuçam até descobrir o bootleg daquela banda islandesa que só lançou um disco em 1972.... Aí, quando ele vem me mostrar -- "Você conhece isso aqui?" --, respondo: "Claro, já tenho." Mas a recíproca também é verdadeira... =)

Wednesday, January 20, 2010

São Sebastião

Para quem gosta de capicuas e palíndromos, o dia de hoje tem seu charme: 20/01/2010. Embora não seja coisa ou outra, tem lá seu estilo, todo ele em zeros, uns e dois.

Hoje é feriado? Não parece. Tem graça feriado assim nas férias. Nos tempos de viagens, São Sebastião era mais ou menos a data mágica a indicar chegadas, assim por volta de, de preferência depois.

Ninguém sabe mas Sebastian não morreu das flechadas. Ele foi liberto e convalesceu. Viveu anos e morreu de velho. Procurem imagem dele depois das flechadas, um homem não-agonizante, na paz de Deus, dormindo em paz com a mulher que encontrou e escolheu. Não encontrarão. Saramago encontrou uma, igrejinha em Portugal, mas são bem raras. O catolicismo gosta do martírio, da agonia e, claro, do êxtase, daí Tião ter ficado tão in nos últimos anos.

Vira e mexe falo de santos por aqui, mas não sou católico nem cristão nem coisa alguma. Falo do catolicismo pela sua mitologia, fascinante por suas contradições e absurdos e desvarios. Como outra mitologia qualquer.

Meu eterno e amado orientador José Carlos Barcellos, católico de boa cepa, disse-me uma vez que se zangava com essa história de "mitologia cristã". O Zé eu respeito. E, por respeitar, dele discordo.

Bom Dia de São Sebastião para todos. Faz calor, bebamos cerveja e brindemos ao Santo livre das flechadas, envelhecendo em paz, sentado à soleira da porta vendo os filhos a brincar no quintal.

Friday, January 15, 2010

As melhores leituras de 2009

Uma visita ao blog do professor, poeta, sambista e amigo Oswaldo Martins inspirou-me estas listas de leituras que ora posto. Já não serão horas de inventariar o ano que passou, dirão alguns torcendo o nariz, mas, oras, 2010 só não começa depois do Carnaval?

Para quem não sabe, Oswaldo é aquele professor que foi demitido da Escola Parque em 2008 porque escrevia poemas eróticos em seu blog. Sensacional isso, não? Ele sempre teve seu emprego assegurado no Colégio Santo Amaro, instituição de freiras tradicionalíssima, mas a sempre aberta Escola Parque, espaço de artistas, espaço de vanguarda e mudernidade, é chegadinha a expedientes totalitários e inquisitoriais. Funny, uh?


OS 10 MELHORES LIVROS QUE LI EM 2009:

A Queda da Baliverna - Dino Buzzati
On Chesil Beach - Ian McEwan
O Último Amigo - Tahar Ben Jelloun
Rainbows in Braille - Elmo Jayawardena
A Lua e as Fogueiras - Cesare Pavese
Perturbação - Thomas Bernhard
Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa
Crime e Castigo - Dostoiévski

Os dois melhores:

O Legado de Eszter - Sándor Márai
A Cidade e os Cachorros - Mario Vargas Llosa

OS 5 MELHORES QUE RELI:
The Zoo Story - Edward Albee
A Lição e as Cadeiras - Eugène Ionesco
Ao Lado de Vera - Alberto da Costa e Silva
As Linhas da Mão - Alberto da Costa e Silva
A Árvore Generosa - Shel Silverstein


DUAS DECEPÇÕES:

A Viagem do Elefante - José Saramago
Entre Mulheres - Cesare Pavese

NÃO CONSEGUI TERMINAR (mas não que sejam necessariamente ruins!):
Pale Fire - Nabokov
Casamentos Bem Arranjados - Carlo Emilio Gadda

Tuesday, January 12, 2010

A Road Song

Não tem "road movies" (Paris, Texas; Sideways; E a sua mãe também)? Não tem "road novels" (Lolita; On the Road, definidor do gênero)? Então proponho que também haja "road songs" e, nesta categoria recém-inventada, my Oscar goes to.... "Willin'", da obscura banda norte-americana Little Feat.
Little Feat é uma banda que passou por diversas formações, mas para mim falar dela é falar de Lowell George, um cara difícil, brigão, que bebia até os sapatos, mas que tocava slide guitar como poucos e compôs pequenas jóias que transitam entre o rock, o country e o folk.
Dizem (o rock 'n' roll tem mais lendas que o folclore celta) que quando ele, então integrante do Mothers of Invention, mostrou "Willin'" ao Frank Zappa, foi... expulso da banda, pois Zappa, ciumento, sentiu que aquele cara ali iria logo chamar atenção demais. Dizem também que ele foi expulso porque a canção traz referências explícitas a drogas e bebida ("weed, whites and wine").
A música é obviamente roadie por falar das viagens do narrador, sempre em busca de uma Alice que parece estar já fora de seu alcance ("Seen my pretty Alice in every headlight / Alice Dallas Alice").
Mas ela é especialmente roadie para mim por três circunstâncias (e talvez quatro ou cinco ou seis) verídicas ("Meninos, eu vi!").
Em 1987, depois de morar um ano em Chicago, chega o dia de eu voltar para o Brasil. Eu e meus pais Dave e Ellen estamos imensamentre tristes na depedida. Pouco antes da partida, Dave me presenteia com uma fita, gravada por ele, cheias de músicas que falam de "going back home", despedidas and what more, coisinhas como "You'll make me lonesome when you go", do Bob Dylan, "White Bird", do It's a Beautiful Day, e, claro, "Willin'", do Leat Feat. Assim, faço toda a bus trip, de Chicago a New York, ouvindo músicas que me marcariam para sempre.
Assim que chego no Brasil, estamos em julho de 1987, embarco com Fred, Miriam e Ana Lúcia em uma viagem mágica por Diamantina, Serro, São Gonçalo do Rio das Pedras e Milho Verde (minha mítica Macondo). Adivinhem que músicas tocam incessantemente naquelas estradas cor de tijolo?
E muitos, muitos anos depois, estou em Goa. Fui, enfim, conhecer a mítica ilha de Chorão, onde me vejo às voltas com a atemorizante igrejona de XXXX. Consigo por lá, depois da visita à igreja e a um templo a Ganesha, descolar uma vendinha muito simpática onde tomo uma Kingfisher gelada. O sentido de plenitude não poderia ser maior. E como voltar a Pangim? Arrumo uma carona com um rickshaw, em cuja caçamba viaja uma gurizada feliz que acabou de sair da escola (é uma de minhas fotos goesas mais queridas).
Estou quase sendo jogado para fora do rickshaw, de tão pequeno ele é. I'm drunk and dirty. Ao atravessarmos uma ponte, que música ouço?
I'm drunk and dirty. But I'm still willin'.

Sunday, January 10, 2010

E o luar for uma coisa só

Sabe aquela coisa de ficar com uma música na cabeça? Às vezes vira tortura quando a gente não lembra o que é, isso já aconteceu tanto comigo, a ponto de eu ficar encarando os CDs, passando a tropa em revista, um por um, para tentar descobrir de onde vinha aquela melodia, aquela voz, aquela guitarra.
Bem, agora é um pouco diferente: estou com um verso na cabeça, mas sem tortura, sem problemas, não preciso passar os livros todos em revista, pois sei bem de quem é, é este aí que dá título a este post.
É engraçado como Jaime Ovalle se faz presente na poesia de Bandeira: neste poema, em um outro que sei de coeur há anos ("Poema só para Jaime Ovalle") e que sempre que recito sinto cheiro de café e em pelo menos dois outros.
Este aqui é pra lá de melancólico: Ovalle está morto e o poema trata do enterro. O poema tem quatro estrofes, citarei apenas o primeiro verso e a última.

OVALLE
Estavas bem mudado.
(...)
Levamos-te cansado ao teu último endereço.
Vi com prazer
Que um dia afinal seremos vizinhos.
Conversaremos longamente
De sepultura a sepultura
No silêncio das madrugadas
Quando o orvalho pingar sem ruído
E o luar for uma coisa só.
*************************************
Este o Bandeira das palavras simples e de muita poesia. E este último verso me acompanha diuturnamente.
Quando o luar será uma coisa só?

Thursday, January 07, 2010

Viva os Reizinhos! (Onde, as Folias?) III

Será que agora o blog deixa eu postar meu soneto?

CARTA A UMA AMIGA, DE FLORES DE GOIÁS

e daqui te escrevo: e esta carta louca,
nesta tarde povoada de andorinhas,
se não é muito, é que me sobra pouca
arte para dizer o que adivinhas.

Sim, nada dirá esta carta rouca
(se assim não fosse, não seria das minhas),
a nada aspira minha carta oca,
e nada esperam, as catorze linhas.

Mas quem afirma que esta tarde é finda?
Bebo um copo, outro copo e um outro ainda
(não mudei nada, como bem o vês...),

quando gemem ao longe hinos janeiros
soam zabumbas, violas e pandeiros,
começa em Flores a Folia de Reis.
(1992-1994)

Wednesday, January 06, 2010

Viva os Reizinhos! (Onde, as Folias?) II

Em janeiro de 1992 decidi me enfiar no buraco mais buraco de Goiás: um lugarejo muito antigo que atende pelo nome Flores de Goiás. Fui na esperança de que a luz ainda não houvesse chegado por lá, por aquele antigo quilombo cujo "centro" consistia em três ruas: do Fogo, da Água e não lembro. Para minha tristeza, a luz já chegara antes de mim. Na verdade, descobri à noite que sem luz não se poderia dormir, pois a única maneira de afastar um pouco as nuves de mosquitos era ligando o ventilador. Na noite em que o gerador pifou, pus-me a vagar pela cidade, às 2 da madrugada.

Mas a lembrança que guardo, de lá onde jamais voltei (não me atrevo; no ano seguinte, fui a lugar semelhante, Cavalcante) é acompanhar uma Folia de Reis que visitava as casas por toda a noite, tomava café e cachaça e dançava catira.


Dessas noites de Folia veio este soneto, escrito à época:

CARTA A UMA AMIGA, DE FLORES DE GOIÁS
(O soneto segue depois, não sei o que está acontecendo com isto aqui que está bagunçando a diagramação das minhas catorze linhas.... Prefiro nem postar agora...)

Viva os Reizinhos! (Onde, as Folias?) I



Chegaram hoje ao seu destino os reizinhos. No Tabladinho fazia parte do Auto de Natal (O Boi e o Burro a Caminho de Belém) esta canção:

Eis os reis
que vêm lá do Oriente
Cada um
Trazendo o seu presente.
Melchior
E o preto rei Gaspar
e finalmente o velho Baltazar.

Nesta hora entravam os muitos reizinhos carregados de presentes e lunetas. Eu, que fazia o papel de Burro, me assustava muito com aquelas figuras esquisitas e pulava no lombo do Boi, que me jogava ao chão.

Sendo hoje dia 6 de janeiro e estando aqui pelo Ingá, decidimos eu e meu amigo Paulo ficar de tocaia, à espera de uma Folia que, parece, há no Morro do Palácio. Creio mesmo ter ouvido alguma coisa ano passado, mas Dante era muito miudinho e não deu para descer. Este ano fomos indagar já no domingo, mas as respostas ou foram vagas ("É, às vezes tem, na verdade eles não descem, mas sobem o morro") ou peremptoriamente negativas ("Não, isso acabou, não tem mais nada, só em Minas").

É? Só em Minhas, Pedro Bó?, não diga. Aliás, essa história de "não tem mais nada, acabou tudo" me lembra ótimo história por que passei em Majorlândia, Ceará, quando eu errava em busca de cocos. Mas essa eu conto depois, não nos desviemos assim tanto dos Reis.

Bem, combinamos de ficar de tocaia: ao menor som de uma zabumba, ao mínimo tilintar de um triângulo, ao pequeno rufar de um adufe, ao mais leve ruído de cantoria, desceríamos correndo, máquinas em punho, para documentar.

Não ouvimos zabumba nem cantoria. Passei ao pé do Morro do Palácio e só vi semblantes mal-encarados. O Palácio, ao contrário do Estado, não amansou, então não convém perguntar muito, o que dizer subir...

Mas o Dia de Reis não passou em branco! Nossas amigas Renata e Wânia vieram nos visitar e, de presente para o reizinho da casa, trouxeram um legítimo Bolo de Reis feito pela Wânia. No recheio, para além das passas e castanhas e frutos secos, o mais legal: anjos, cofres, corações, flores, clarinetas, coelhos, simbolizando que sorte teremos neste ano que começa, dependendo do objeto que estiver em nossa fatia...

Eu tirei o cofrinho de porquinho.

Tuesday, January 05, 2010

Pataniscas



Sou fanático pelas pataniscas do Pavão Azul. Pataniscas são uma iguaria portuguesa, uma espécie de bolinho de bacalhau (que lá eles chamam de 'pastéis de bacalhau') que não leva batata. Existem bem poucos restaurantes / botecos aqui no Rio que as servem, portanto é mais que hora de inventariar esses lugares, de modo a termos um porto seguro a nos socorrer sempre que uma vontade incontida de devorar pataniscas nos acometer.

Hoje recorro sempre ao Pavão Azul, simpaticíssimo boteco situado na Hilário de Gouveia. Perdoem-me, serei ranzinza novamente: antes ninguém conhecia o Pavão, depois que caiu na moda, aparecendo no Rio Botequim e nas Vejinhas da vida, suas pouquíssimas mesas são disputadas a tapas. Como só uso minhas mãos para o amor e para comer pataniscas, procuro o Pavão nas horas off-Broadway, mas aí, outro problema, já que só servem as iguarias a partir das 4:30 da tarde!

O que fazer? Ora, é só sentar lá com meus diletos amigos Flávio e Guta, (que, embora morem ao pé do Pavão, também não o conheciam e só foram fazê-lo graças a mim), habitués do local e amigos da Verinha. Assim muito na moita, ela anui e faz, às escondidas, uma porção especial para a gente, na hora do almoço...
Vera e sua irmã recebem a todos muito bem. Mesmo nas horas de pico, quando você pede a conta, elas perguntam: "Mas já?". Não é em qualquer lugar...

Embora eu morra de ciúmes do Pavão, não me incomodo em dividi-lo aqui com os leitores deste bloguinho. Podem ir na boa, é um pé-sujo de unha feita e, sendo hora de almoço e não havendo Flávio e Guta que intercedam por vocês, peçam o risoto de camarão. É risoto brasileiro, não esperem arroz arboreo ou carnaroli. Mas é bom bagaray...
Se forem, me chamem. E nem pensem em pedir a receita à Vera ou à sua irmã: é segredo guardado em cofre cuja chave foi atirada ao mar de Copacabana.

Monday, January 04, 2010

Ai, que preguiça!

Dantuca é niteroiense da gema. Nascido em Santa Rosa, criado no Ingá, passeado e medicado em Icaraí, de mãe araribóia e pai araribóia por opção. Sendo assim, não é que o menino passou a se interessar por tupi? Imagina se morássemos em São Francisco, onde as ruas têm nomes de tribos...

Hoje, durante o passeio da tarde, saiu o garoto com esta, depois de olhar para os dois lados: "Ai, que preguiça!" Fechou os olhos e dormitou. Em pleno calçadão da Praia de Icaraí. Onde está o tupi? É que "preguiça", o bicho, não o pecado venal, que isto os índos não conhecem, em tupi é... "aique". Ou seja, ao falar "Ai, que preguiça!" estava ele fazendo genial jogo de palavras e enunciando 'preguiça, preguica'....

Onde Dante aprendeu isto, deconheço. Tupi or not tupi, that's the question.

Eu não falia, vovó?




Quando miudinha, minha sobrinha Karolina tinha a mania de dizer "Eu não falia, vovó, eu não falia?" Sou pouco preciso ao dizer "mania", é provável que ela tenha dito umas poucas vezes, talvez uma única vezinha, e minha mãe e eu inventamos que era mania, porque nós fazemos assim: tudo inventamos, exageramos, alargamos, se é para tornar mais divertido ou bonito. Sequer saberia dizer agora se este "falia" tinha (ou teve) o valor de "falava" ou "falei". O que acham? Tem bem mais cara de pretérito perfeito, mas a certeza deixo para os linguistas de plantão, que a minha linguística (que a Faculdade de Letras quase assassinou) é a de Oswald, a da poesia, a das imprecisões.

Bem, a que vem isso tudo? Participo ativamente de alguns fóruns sobre rock progressivo na internet. Neles já disse mais de uma vez que, se um dia eu me converter, se um dia eu deixar de ser este ateu que sou (mas que reza no aperto, é devoto de São José e de Ganesha), a culpa é do Neal Morse. Explico.

Neal Morse era o líder da ótima banda Spock's Beard, uma das mais importantes da cena progressiva nos anos 90. Depois de seis ótimos trabalhos, caiu fora para se dedicar à carreira solo. E a Jesus. Todos os seus discos tratam explícita e incansavelmente de religião. Eu acho isso um saco, mas o problema é que as músicas são ótimas, maravilhosas, pegajosas, grudentas, irresistíveis. Deus meu (opa!), ouvi ontem e hoje o One e o ?, seu segundo e terceiro trabalhos, respectivamente, e tem horas que dá vontade de gritar na rua, de dançar na praia, de... enfim, se converter, cacete!

Estava eu hoje chegando a São Domingos, onde tinha meu primeiro compromisso do ano no COLUNI (o Colégio de Aplicação da UFF), quando começa a tocar a canção "Outside Looking In", umas das poucas lentas desta montanha-russa de louvação a Jesus (mas também a guitarras, a baixo, a bateria e tecladeira!) que é o ?. O que faço (meu compromisso já fora para o espaço, ninguém apareceu, só euzinho aqui)? Vejo a porta da igreja de São Domingos de Gusmão aberta e, qual cachorro, entro! Culpa do Neal! Eu não falia, vovó, que isso ia acontecer um dia?

A igreja é véia, do século XVIII ou mesmo XVII, chegou a receber a família imperial algumas vezes, que gostava de atravessar a baía (vinham de catamarã ou pegavam a ponte? Que dúvida...) para ter com Deus. Sucessivas reformas, no entanto, tiraram-lhe aquele cheiro rançoso e delicioso de igreja velha. O golpe de misericórdia veio na primeira década do século XX. Ainda não existiam Mário de Andrade e SPHAN para zelar pelo nosso passado...

De qualquer modo, a igreja é bonitinha. Imagens antigas já não há, levadas que foram pelos antiquários e sacristãos. Mas sempre vale a visita.

E num único post cabem sobrinha, linguística, rock progressivo, conversão e patrimônio histórico.

Eu não falia, vovó?

Alcoólicas


"Drink we till we prove, not less, than men,
And turn not beasts, but Angels.
(...) and forget to die"
Richard Crashaw
(poet and saint)

Na noite de 31 de dezembro abri uma Karmeliet, uma tripel belga que já tomara algumas muitas vezes, mas fazia tempo. O copo, vejam, com suas flores-de-lis, é dos mais belos de todos. A cerveja caiu muito bem, ela é tanto floral quanto frutada. Apesar de seus 8%, não desce forte, antes pelo contrário, ela tem ótima drinkability, dá vontade de beber várias, o que nem sempre se dá com as belgas fortes. Só senti alguma falta de corpo....

E, antes de irmos ao Mercado de São Pedro, já no dia 2, fizemos um pit stop aqui em casa. Para a ocasião, eu selecionara o Aberlour a'bunadh, uma raridade de Speyside que só se encontra em alguns poucos freeshops da Europa (e na Escócia, of course). Tinha esta garrafa aqui há anos, guardada para uma ocasião especial. Bem, não é todo dia que se comemora a chegada de 2010, então a ocasião mais que especial já tínhamos. É um single malt extremamente forte, em seus 59,7% de álcool. Haja gelo para amaciá-lo um pouco, senão fica parecendo que estamos bebendo conhaque. Caiu bem, abriu o apetite, mas fiquei com a impressão nítida de que funcionaria melhor após uma lauta refeição, de preferência com um puro. Só que enjoei de charutos, desde a noite em que saí para comemorar a defesa da tese...

Sunday, January 03, 2010

Tem Leffe no Pedro


Fomos ontem eu e André, não o irmão de sangue mas o de afinidade clubística, ao Mercado São Pedro, patrimônio dos boêmios diurnos. Descobri esta jóia em 1997, quando a Bia terminava sua dissertação e eu passei a cozinhar nos finais de semana. Em princípio, eu ia botininho, comprava o peixinho e/ou o camarãozinho e voltava para casa. Depois... descobri o segundo andar, e aí já não voltava para casa tão rápido assim.

O Mercado "cresceu". O segundo andar cresceu mesmo, sem aspas. O que eram apenas dois restaurantes-botecos pé-sujos hoje é um andar inteiro. A fama se fez, se espalhou, os preços subiram. Os limpadores de peixe do andar de baixo já não tomarão por aqui sua cerveja, muito menos comerão por aqui seus bolinhos de bacalhau. Ontem, ao encontrarmos todos os restaurantes botando gente pelo ladrão, suspirei pelos dias em que Niterói era Niterói, isto é, que era motivo de chacota...

Mas não são horas de nostalgias. Ainda não trocaram a cerveja pelo chopp, mas não é que já se encontra a Leffe por lá?! Que se pode tomar, os que insistem, claro, em seu próprio copo?! Prova de que este crescimento não traz apenas desvantagens...

Thursday, December 31, 2009

O Disco do Ano e O Disco do Ano



Sempre que penso em um disco do ano, faço-o em duas frentes: o disco lançado no ano que passou e o disco de que mais gostei no ano, independente de quando foi lançado. É possível que haja interseção entre as duas categorias, como poderia ser o presente caso, mas, for the sake of variety, escolhamos dois álbuns diferentes.

Nada aqui é a ferro e fogo. Fico com estes dois, ambos maravilhosos, como poderia ontem e poderei amanhã me decidir por outros.
Na categoria, pois, "descoberta do ano", fico com o Love Hate Round Trip (2006), da banda italiana Areknamés.

Na categoria "lançamento de 2009", fico com o Hazards of Love, dos norte-americanos The Decemberists.

O Areknamés nos propõe um progressivo sinfônico pesado, muito soturno, emocionado, denso, com um trabalho de produção acima da média. A comparação com o Van der Graaf Generator é inevitável, e olha que é difícil encontrar bandas claramente influenciadas pelo VdGG, muito mais difícil do que encontrar influenciadas por Yes, Genesis, ELP ou King Crimson. Isso se dá porque, para lembrar o Van der Graaf, mesmo que vagamente, deve haver uma semelhança com o que a banda inglesa tem de mais notável, os vocais de Peter Hammill. (E não, como boa parte de uma crítica incipiente e preguiçosa amiúde faz: "Tem sax? Lembra VdGG!"). E como é difícil assemelhar-se aos vocais únicos e apaixonados do Peter! Bem, mas a voz de Michele lembra muito a do Mr. Hammill, impressionante! Tanto o timbre quanto o alcance e a impostação e a enorme dramaticidade. Claro que a qualidade maior do álbum não se resume a "lembrar VdGG". As composições são soberbas e complexas e há um peso, com riffs sabbathianos, de todo ausente do Van der Graaf.

O engraçado é que cheguei a fugir desta banda quando na Halley me disseram, falando de seu primeiro trabalho homônimo (2003), que o som era doom. Ouvir isso e ver que o disco fora lançado pelo selo genovês Black Widow afastaram-me. Acabei comprando o Love Hate na Rock Symphony sem esperar muito. Caí de quatro.

Só para terminar: a música "Ignis Fatuus" bem poderá ser lembrada como a "House with no Door" dos anos 00. Digo isto porque não consigo pensar em elogio maior.
Em uma época em que o importante é baixar musiquinhas para servirem de ringtones para o celular, lançar uma ópera-rock com 17 canções interligadas que fluem ininterruptamente, como fazem os Decemberists nesta obra-prima que é Hazards of Love, é marca inequívoca de uma atitude progressiva. O som transita entre o indie, o pop de altíssima qualidade (David Bowie inicial, Talking Heads, Pulp) e o progressivo, mas a fatura é predominantemente folk, seja na instrumentação, seja nas letras.
Ópera-rock, o disco nos apresenta uma história repleta de verve. Percebe-se um cuidado estrutural quase joyceano (sei que exagero): entre as 8 canções iniciais e as 8 finais, um interlúdio, instrumental, belíssimo. Depois dele, os temas retornam com novas e variegadas roupagens, como "The Hazards of Love" e "The Wanting Comes in Waves".

Difícil dizer que as letras são o ponto forte do trabalho, pois isso pode implicar que a música vem em segundo plano, o que não é verdade. Mas as letras, sim, mostram como o manancial folk é inesgotável e está sempre sujeito a releituras. Repletas de inventividade e maldade (o folclore é cheio de perversidades, senhores, não estamos a falar de Disneilândia), elas nos levam a um mundo fantástico e, por isso mesmo, ambíguo. E, sem querer, faço um link com o post anterior, o do malfadado leiteiro: se viver é muito perigoso, não o será também amar? Hazardous.

Outro ponto alto reside nos vocais. Os de Colin Meloy são desenvoltos e sinceros. Os femininos, apaixonados e operísticos. Os coros, estupendos.

Obra-prima. E pensar que ainda existem aquelas viúvas insuportáveis dos anos 70...

Wednesday, December 30, 2009

A Felicidade do Leiteiro ou Não Amarás


Um dos episódios mais perturbadores da monumental obra O Decálogo, do Kieslowski, é o sexto: Não Cometerás Adultério, que depois saiu em filme separado sob o mais apropriado título Não Amarás. O quinto, Não Matarás, também saiu em filme posteriormente, mas aí não foi necessário mudar o nome. Para quem estiver interessado em Kieslowski (pode-se não estar?), é preciso assitir ao filme e ao episódio do Decálogo, de vez que há diferenças entre os dois, principalmente no final.

(Antes de falar do episódio: chamei-o de um dos mais perturbadores, já que O mais, sem dúvida, é o primeiro, tanto que não tenho coragem de rever)

Não vou aqui fazer uma crítica do filme, mas apenas comentar uma cena, que dura pouco mais de trinta segundos: aquela em que o jovem leiteiro corre em alegria incontida puxando atrás de si sua carreta de garrafas de leite.

Esta cena se dá logo após uma outra, dura, quando ele, Tomek, um jovem de 19 anos, trava diálogo com o obejto de sua paixão, Magda, uma mulher mais velha, em seus trinta. Eles estão no corredor do prédio dela. Ela esperou que ele fosse deixar a garrafa de leite para golpeá-lo com a porta. Na noite anterior ele fora agredido por um dos amantes de Magda e está, portanto, com o olho roxo. Ela o humilha, mas está curiosa para saber por que aquele jovem, para ela insignificante, a espia.

- Por que me espia?
- Porque eu te amo. Amo mesmo.
- E o que você quer?
- Não sei.
- Quer me beijar?
- Não.
- Talvez queira ir comigo para cama. Ou melhor, fazer amor comigo?
- Não.
- Então o que quer?
- Nada.
- Nada?
- Nada.

(Ele caminha pelo corredor de cabeça baixa. Depois volta-se e caminha para ela)

- Poderia convidá-la para um café? Ou um sorvete?

Corte.

E a cena, filmada do alto, mostra o garoto Tomek em sua desabalada correria, numa felicidade suprema. Pela primeira e única vez em todo o filme (em sua vida), ele está despido de sua timidez e de seus temores. É um homem apaixonado e, nesta cena, "correspondido". A câmera gira de modo a transmitir-nos um pouco de sua vertigem. Ele esbarra em um homem, a quem, cheio de vida, pede desculpas.
E é só.

Magda, uma mulher experiente e promíscua, não acredita (mais?) em amor. Isso lhe poupa de um bocado de trabalhos e dores e palpitações e esperas e frustrações, não? Sábia Magda, inda que, creio, isso não tenha sido escolha sua. Não se pode decidir que se vai acreditar ou desacreditar em amor. Isso é o que a vida faz com a gente. Mas, retomando, isso impede Magda também de ter aqueles trinta segundos do Tomek...
PS: A foto mostra Tomek, funcionário do correio, e Magda. É que ele trabalhava no correio, apenas para enviar-lhe ordens de pagamento falsas para que ela fosse ao seu local de trabalho. O trabalho de leiteiro também foi apenas para acercar-se dela.
PS2: E o final do filme? Como fica, então, essa questão entre amor inocente e descrença total?

A foto aclássica de botequim



Foto clássica de botequim todos sabem como é: copo cheio em punho levantado. Com meu pai é diferente: livro em punho. Clássico dele. O livro é... bom, dá para vocês verem. Eu tencionava dar-lhe de presente; ele, como sempre mais rápido, me deu.


O "botequim" não é bem botequim, é restaurante, embora já tenha constado em edições do Rio Botequim. Aqui escrevi o poema no guardanapo do post abaixo. Quem descobrir o nome do restaurante, ganha chopp no dito cujo. Pista (para além da foto que já é pista e tanto): é o meu favorito, onde espero que deixem (pedido em testamento lavrado no 9o Cartório) parte de minhas cinzas quando morto estiver meu corpo. Se eu der a pista do prato carro-chefe da casa, perde a graça...

Tuesday, December 29, 2009

A poesia sopra onde quer

Já que falei recente em "orkut à moda antiga", não tem aquela história de escritor que escrevia em tudo quanto era lugar: caderninhos, contas de telefone e, claro, guardanapos? Clarice era assim, um monte era. Hoje é mais provável o cara abrir o notebook no colo para, depois de alguns chopps, escrever uma poesia feita literalmente nas coxas. Mas não há crítica aqui, tipo antes que era bom, hoje é ruim.

De qualquer modo, tinha eu hoje almoço com o pai. Cheguei meia hora mais cedo e ele, vinte e cinco minutos mais tarde, o que me deu a bagatela de quase hora para preencher. Pedir algo para comer não vale; para beber, claro, vale. Escrever um poema no guardanapo também.


MORNING DREAMS


"If I ain't dead already
Oooh girl you know the reason why"
Lennon


Aren't foolish those who are
satisfied with their dreams at night?
Fools are they
'cause the night
friend or foe
gives itself enough feed
and veils with its wings our minds.

I dream in the morning
the same dream
I dream.

Though recurring
and painful
never do I get enough.

You call me up
saying you miss my voice and my tender ways.
We talk for hours.

How hackneyed it is.
But it is a dream.
No control over it, girl.

Sunday, December 27, 2009

Uma razão para 2010

Passei dois dias pensando em um post para Prokofiev, já tinha título e tudo, e eis que este sobre Mahler atropela o russo.

Não que eu ande atrás de efemérides ou prestigie apenas números redondos, mas é que 2010 já tem uma razão de ser: é o sesquicentenário de nascimento do grande Mahler, Gustav Mahler. "Sesquicentenário" é palavra esquista, a mim sempre lembrou "seiscentos", quando, na verdade, vocês sabem, quer dizer cento e cinquenta.

Estranho isso também... só 150? Então quase fomos contemporâneos, e não estou brincando...

Há 150 anos nascia este homem irascível, difícil, extremamente sensível. Amou uma Alma e por ela perdeu a sua. "Previu" a morte dos filhos nos fantasmagóricos Kindertotenlieder. Vivia em guerra com Deus e o mundo, literalmente, e foi, acima de tudo, apátrida, três vezes apátrida. Lembrei-me de que em Taipa escrevi um poema chamado... "Apátrida", do qual citarei apenas os dois primeiros versos: "Ler tua poesia me é triste / Como um adágio de Mahler."

Gosto tanto, mas tanto de Mahler, que quase não o ouço. É uma música de que realmente tenho medo. Tenho dificuldades para encarar de frente a Sexta, a Quinta, a Primeira e, principalmente, a Nona, embora eu faça de tudo para assistir se forem tocar ao vivo.

Aliás. E a propósito. E desanuviando un peu o post que está pesado: assistir aos ensaios da Nona Sinfonia pela Orquestra da Petrobrás, em 2007, foi um prazer e uma honra indescritíveis. Graças à harpista Rafaela, que deve comentar por aqui...

Tu sarai grande

Por este blog celebramos alguns mensários do Dante, não é justo que não se fale de seu aniversário, seu primeiro aniversário.

Em 2008, numa tarde de sexta, fomos ao Dr. Paulo e ele, sempre muito tranquilo e sorrisos, nos diz que o bebê está maduro. Às seis da tarde, uma hora aberta, Dante já está neste mundo confuso e belo. Era 19 de dezembro.
Depois minhas pálpebras se fecham e, quando tornam a se abrir, Dante já tem um ano de vida. (Mas quantas quantas quantas coisas não couberam neste abrir e fechar de pálpebras).

À festa compareceram pessoas queridas, um bobo, muitos bichinhos.

Ao meu filho dedico estes versos do Locanda Delle Fate, que fecham este que é um dos discos mais bonitos, maduros, apaixonados e apaixonantes do rock progressivo italiano dos anos 70, o Forse le Lucciole Non Si Amano Più, no improvável ano de 1977. Aliás, agora que escrevi sobre a data, me ocorre que estes versos fecham não apenas este álbum, mas a própria cena progressiva italiana dos anos 70:

Tu sarai grande più di Icaro,
ti guarderai volare.

Saturday, December 26, 2009

Orkut à Moda Antiga

Vejam que interessante. Colei uma foto minha com o Dantuca no gavetão do arquivo da Equipe de Inglês na Sala dos Professores. Aliás, dizer "uma foto" é errar: colei a foto ou esta foto que acaricia este blog. (Sim, tenho outras fotos com o patifinho, mas que no momento é esta a minha fave.) E aí, um dia depois, encontrei um recadinho junto a ela, a que se seguiram outro e outro e outro e outro. Acho que depois desta foto ainda teve outros. Colegas que tiveram ganas de comentar alguma coisa e foram deixando scraps...

Friday, December 25, 2009

Um Flamboyant passou por aqui

Há muito queria escrever sobre estas árvores que sangram nosso verão: os flamboyants, as Gulmohar trees...
Bom, passeando muito pelo Grajaú (eh, virou tag por aqui?), é inevitável: um aqui, outro ali, às vezes as copas chegam a se juntar...

Wednesday, December 23, 2009

Dolce Acqua

Ontem, meio que do nada, peguei para ouvir uma banda que não ouvia há muito: o Delirium. O Delirium me traz lembranças muito nítidas de 1985 e de 1998. Falarei apenas destas últimas. Ana Beatriz e eu acabáramos de chegar de nossa primeira viagem à Itália. Chegamos nós, porque todas as três malas haviam se extraviado, o que nos causou imensa consternação. A mim porque uma delas continha APENAS CDs. Uma mala estourando de CDs. Já em casa, passadas algumas horas, nos ligam do aeroporto dizendo que duas malas haviam, enfim, aterrissado. Voamos para lá e eis que... a dos CDs chegara, que alegria! Em casa, ponho logo para tocar o Delirium, que eu não ouvia desde....85, mas que guardava na alma como se tivesse escutado no dia anterior. Tanto que, ao final da música "Jesahel", canto junto "one, two, three, four", para meu espanto (nem eu sabia que lembrava tão bem) e para espanto e raivinha da Ana, já que a mala de roupas dela não chegara. Percebo meu egoísmo e refreio minha empolgação. Mas sua mala chegaria no dia seguinte.



Um dos destaques deste primeiro Delirium parece-me, sem dúvida, a canção que dá nome ao disco. Uma faixa quase toda instrumental, em crescendo, na qual os instrumentos vão sendo lentamente adicionados.



O ótimo crítico Riccardo Storti, em seu livro dedicado exclusivamente à cena do rock progressivo na Gênova da primeira metade dos anos 70 (dá para ser mais monográfico?), reclama de certa monotonia, já que o motivo da flauta é repetido muitas vezes. Não percebe ele que esta repetição, climática, tem a função de preparar-nos para a entrada triunfal, messiânica, à la Jesus Cristo, de Ivano Fossati e sua voz de barítono:



Verde prato

dentro me.

La tempesta è passata,

non è mai freddo.

Dolce acqua.

Tirei a letra de ouvido, o que a torna sujeita a erros. Fossati canta apenas isso. Mas quem canta com aquela voz que há um verde prado dentro de si e anuncia fim de tempestades precisa dizer mais alguma coisa?

Monday, December 21, 2009

Concerto para Cigarras e Orquestra em Sol Maior

Saí do Grajáu por duas vezes: em 1980, quando minha irmã casou, e em 1995, quando casei eu. Da primeira vez, voltamos em 1985, depois de uma estada no Andaraí. Dentre outras coisas, preocupava-me sobretudo sair do bairro para outro em que não houvesse tantas cigarras. Porque as do Grajáu, ah, eram copiosas. E boas cigarras que eram, rebentavam de cantar não apenas na hora clássica do crepúsculo, mas também em plena madrugada quente! A lembrança de ouvi-las às 2 da manhã é indelével.

Neste ponto, e em outros muitos, o Ingá não me desaponta. A cigarrada por aqui é onipresente e, tal qual as de lá, recusa-se à cantoria da hora costumeira apenas (mas que é a hora que mais dói), ciciando de dar gosto pela manhã, principalmente por volta das 10.

As do museu são tão absurdamente loquazes (lembrai-vos da Cecília que queria, como elas, morrer de cantar) que sobrepujam amiúde a música (sempre alta, a me estourar os tímpanos) que me vem do fones de ouvido.

Daí a ideia de escrever um Concerto para elas. Em Sol Maior, claro.

Montemos a orquestra, que as cigarras já temos:

Rafinha tocará harpa.
Giulia, violão.

Alguém mais se habilita?

(Ah, Dante eu e ensaiaremos as cigarras)

Sunday, December 20, 2009

O coco do Valdecir

Tutuca e eu sempre paramos no Valdecir para um coco. O coco aqui tem estilo, personalidade, guardanapo, cestinha, banquinhos, a simpatia do Valdecir e de sua cadela gorda e preguiçosa, brisa, uma sinfonia de cigarras e, claro, a vista.

Era 996 e chovia


Quinta passada, dia 17, foi aniversário da mãe, então a ideia era dar uma passada no Grajaú antes de ir ao show do Flor de Loto. Problema foi que me atrasei, custei a sair de casa e daí, dentre as várias opções possíveis (703, barca), creio ter escolhido a pior delas: 996 e depois táxi.

Tão logo entrei no ônibus percebi que os passageiros evitavam os lugares preferidos, mesmo em uma cidade perigosa: as janelas. Pudera, chovia nos assentos dos cantos! O sistema de ar condicionado gerava pingos e fios d'água que encharcavam os bancos! Pequeno prenúncio do torozão que ainda estava por vir do lado de fora do ônibus.

Consegui assento no corredor, mas, no que o ônibus vai enchendo aos poucos, mesmo os assentos sujeitos a chuvas e trovoadas são tomados, embora eu gentilmente avisasse aos que vinham se sentar do meu lado: "Ó, tá chovendo...".

Quando o ônibus está para pegar a ponte, foi o que se vê na foto: abrem-se guarda-chuvas! E começam a tocar "La Valse D'Amélie", do Yann Tiersen, no acordeão! Palmas estalam por todo o veículo. Eu e a passageira do lado (que, sim, está levando pingos na cabeça) começamos a conversar ("Pode isso?" "Bem, se até em Paris tem" "Pelo menos não é funk" "Nem hip-hop"). Ela é Roberta, uma... antropóloga, que trabalha no Viva Rio e vai tentar o doutorado em breve. Não hesito: conto-lhe acerca das minhas muitas antropologices amadoras pelo sertões de Goiás e pelas praias (quando as havia) do Ceará...

Então é isso: chove no ônibus, tocam Amélie Poulain e ao meu lado descubro uma antropóloga.
It's not every day, that's what they'd say...

Friday, December 18, 2009

TPA

Neste exato momento, são 23:25, sofro de tensão pré-aniversário. Dante completa um ano amanhã. Se começo a pensar, fico realmente confuso. O melhor é não pensar?

Tutuca Miguilim




Não sei se sabem, ele mesmo finge não saber, mas Tutuca terá que usar óculos. Não é nada fácil convencer isso a um infante ainda tão quente de útero. Na foto, ele parece resignado, não? Mas o que ele gosta mesmo é de tirar os óculos da cara, esteja onde estiver. No início, usamos uma corrente-molinha para prender o dito cujo em seu rosto, e daí ele tinha certa dificuldade em tirar. Hoje adotamos o stopper, cujo significado para mesmo no nome, já que os óculos não param na cara. Com este stopper, ele tira os oclinhos com uma tranquilidade de gente grande, um charme só.

Fizemos os óculos na Ótica Ana Paula, na Galeria Condor, no Largo da Machado. Uma história muito interessante, a da ótica Ana Paula. Ela tem um sobrinho com Síndrome de Down, o João. Desde muito pequeno, perceberam que ele necessitava de óculos. A primeira oftalmo, no entanto, negou, disse que sua visão era normal. Como a família insistiu, acabou levando-o à Andréia Zin, que viria a ser a oftalmo do Dante mais de dez anos depois, que detectou.... doze graus de miopia. A tia Ana Paula ficou tão cismada com aquilo que descobriu sua vocação: largou seu trabalho e investiu em ótica. Para crianças. Hoje a única especializada em nosso estado. As fotos das crianças são de sua ótica, o que mostra que Dantuca estará em muito boa companhia de crianças lindas e cheias de vida. Se ele aceitar os óculos, é claro.

Tem que ter PS: a ótica fica na Galeria das esfihas, este o nome verdadeiro, o Condor é só para impressionar Castro Alves. E a esfiha, the one and only, é a da Pizzaria Oriental, que não serve pizza, e sim impagáveis esfihas engorduradas. O vulgo parece preferir a "Rotisseria Sírio-Libanesa", muito maior, mais formal, mais limpa. Não troco a Pizzaria Oriental por nada.

Friday, December 11, 2009

Nick, Árvores & Ingratidão


De certo modo, este post é continuação (prometida) daquele sobre o Nick.

Nick Drake é, hoje, referência incontornável no mundo dos singer-songwriters. Sem fazer muita pesquisa, cito de cabeça aqueles normalmente lembrados como influenciados por ele: Ray Lamontagne, José González, Elliott Smith, Jack Johnson, Fionn Regan, Bon Iver, Alexi Murdoch. Destes, acho que o Jack não tem nada a ver com o Nick, quase o mesmo acontecendo com o Ray. O Elliott Smith é notável, mas tem um lado meio punk de todo ausente em Nick.

Alexi Murdoch, o mais "recente" do grupo, tem um timbre de voz muito semelhante e ótimas canções. Tem um disco só, Time without Consequence, mas já fez a trilha-sonora do Away We Go, filme do Sam Mendes que deve chegar por aqui em fevereiro de 2010.

O Andrew Bird e o Damien Rice, que nem botei na lista, são os melhores, mas suas canções são cada vez menos folk.

O José González, com os discos In Our Nature e Veneer, também é o melhor e, este sim, carrega na alma o ethos nickdrakeano. José González é genial.

Porém o mais interessante disso tudo é que toda essa enorme influência do Nick não poderia ter sido jamais imaginada por ele, por sua família, por seus esparsos conhecidos, por seu pequeno público. Nick passou a carreira quase que inteiramente despercebido. Já completamente desiludido, ele deixou as fitas masters do Fruit Tree na portaria da gravadora e se mandou. Como quiseram dar-lhe mais uma chance, ele gravou o disco em apenas duas sessões, da meia-noite às duas da manhã. Imaginem o frio e o silêncio do estúdio. Este frio e este silêncio ouvem-se nas canções, ainda que sua voz aveludada nos traga certo calor.

Depois deste disco ele percebeu que nada mais tinha a fazer neste mundo.

Foi só em 1999, depois que a música "Pink Moon" apareceu num comercial da Volkswagen, que o sucesso veio. Com o reconhecimento, seus discos passaram a vender. E hoje todos querem ser Nick. Mesmo os que não querem têm que lidar com sua figura, in a way or another.

Já usei a palavra "interessante", então direi que o mais incrível nisso tudo é que ele próprio já previra esse sucesso póstumo na canção "Fruit Tree", a penúltima do Five Leaves Left.

"Fame is but a fruit tree, so very unsound
It can never flourish till its stalk in in the ground
So men of fame can never find a way
till time has flown far from their dying day."

O refrão perfeito:

"Forgotten while you're here, remembered for a while
a much updated ruin from a much outdated style."

E a assombrosa última estrofe:
"Fruit tree, fruit tree, no one knows you but the rain and the air
Don't you worry, they'll stand and stare when you're gone
Fruit tree, fruit tree, open your eyes to another year
They'll all know that you were here when you're gone."

E como palavra puxa palavra, esta solitária fuit tree me traz à mente uma outra árvore, A Árvore Generosa, belíssima tristíssima história de Shel Silverstein. Gostava de contá-la em 1991, para a turma do Arthur, da Julia Pelajo, Julia Dornelles, Juliane, Antonio Manoel, Rafinha (que tudo ouvia), Carol, Alice, Alicinha, quando eu trabalhava no Tabladinho. Contava até eles, que tinham quatro anos, chorarem. O Arthur, levadíssimo espertíssimo, fazia biquinho e coçava os olhos, dizia que tinha entrado cisco. Nunca me esqueci dessa história, mas o livro se perdeu ou o deixei como legado na escolinha. Foi só bem recentemente que o nome do livro (este sim eu esquecera) me veio cristalino numa manhã de sexta. Chequei na Estante Virtual, o próprio. Descobri edição nova pela Cosac Naify, com a mesma tradução do Fernando Sabino e com as mesmas ilustrações.

A história, naturalmente, permite diversas leituras. É fácil ver no menino representação exemplar da ingratidão, mas essas facilidade não retira dessa leitura sua validade. O menino é um ingrato, ao menos salva-o (será?) o fato de que ele permance menino por toda a narrativa, mesmo quando já se tornou um velhinho curvado com dentes fracos demais para maçãs (que a árvore, ao final apenas um toco, já não tinha). Essa leitura de que o menino não cresce encontra suporte nas palavras mesmas da árvore: "Venha, Menino, depresa, sente-se em mim e descanse." e nas do narrador, em sua visão-com a árvore: "Foi o que o menino fez".

Exigir que o menino tenha seu momento epifânico como King Lear (afinal, o maior relato já escrito sobre ingratidão) é pedir demais de um menino, mesmo porque a história acaba e não nos parece razoável imaginar o que aconteceria em páginas náo escritas.

E a árvore, que tampouco é uma Cordelia (again, Shakespeare), apenas cumpre seu destino. Ela é aquela mulher sem nome do conto "Death in the Woods", do Sherwood Anderson.

Não pensem que leio apenas Drummond, mas não há como fugir desses versos:

"Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão."

Ah, o livro é dedicado a um... Nick.

E este blog o que é? (É ladrão de muié?)

Este blog nasceu com a finalidade muito clara de relatar meus passos em Goa, daí o nome. Serviu para tal? Sim, sim, bem até, inclusive pessoas pouco ou nada afeitas a estas linguagens passaram a drop by eventualmente para ver o que fazia este aqui lá na costa do Malabar. Falo de meu pai e de minha mãe.
Depois vieram outras viagens: Alemanha, Goa novamente, Escandinávia, e este já se tornara um blog de viagens.
Quando Dantuca nasceu, achei por bem continuar usando este espaço para dele falar, já que Dante era / é uma viagem, a por tanto adiada, a mais fascinante.
Hoje, percebo, o blog tornou-se um pout-porri de temas, nem sempre interligados. Viagem viagem ainda não houve outra; viagem Dante, sim, e é esta a função principal do espaço. Como gosto demais de sons, eventualmente trato de música e músicos. Cheguei a criar um blog específico para este fim (o progressiva-mente), mas logo me dei conta de que era melhor um bloguinho gordinho do que dois macilentos. E quando falo de Nick Drake, de Turid, de Moon Safari, tenho a pretensão (a palavra é esta, o escritor, mesmo o blogueiro, é um pretensioso) de que os leitores interessados em notícias do Dante (leitores estes que não iriam acessar um blog especializado como o progressiva-mente) fiquem também levemente interessados.
E assim vamos: Dante, música, experiências, cotidiano, poesia, cervejas, teaching, árvores, culinária: tudo são viagens, que a vida, enfim, num magoa.

Wednesday, December 09, 2009

Going Indian for a Change


But if I could it wouldn't be a change, for I'd go Indian every day!

Foi Lúcia que me chamou ontem à noite para falar da comida de hoje. Claro que o curry, insuperavelmente aromático, eu já sentira pela casa. Ela queria era saber se servia com arroz integral mesmo ou com batatas. Falei-lhe da abundância de amido e que o arroz ideal seria o basmati, que eu tentaria comprar mas nem tentei. Ficamos com o frango ao curry, arroz integral e batatinhas um-dois-três (e mais espinafre e feijão, nos quais nem toquei). Rosana, que tem nos regalado com visitas às quartas, não falhou e se fartou conosco.

Do almoço indiano tirei dois pretextos: Pilsen gelada e lupulada e uma visita à banquinha do Seu Cláudio, um sujeito engraçado que passa os sete dias da semana na esquina da Presidente Pedreira com a Nilo Peçanha descascando laranjas. Poi zé, uma breve visita mostra que nem só de laranjas vive Seu Cláudio, pois que em sua birosca ao ar livre comprei pimentas dedo-de-moça e doce de jaca (somos entusiastas de sobremesas leves).

Tuesday, December 08, 2009

Carrinho-Fantasma ou As Monções estão chegando

Vejam isso, um carrinho-fantasma! Não fossem aqueles pezinhos internacionalmente conhecidos, talvez o anonimato pudesse mesmo ser mantido.
Eh, ontem fizemos breve passeio eu e Ana com o Dantuca quando a chuva nos colheu em cheio! E ele dormia, pobrezinho! E volta pra casa ligeiro, com o carrinho assim todo coberto. Ao pararmos na porta da padaria da esquina, à espera de que o sinal fechasse, a mãe mete a cara carrinho adentro para ver como está o pequeno e ele, já acordado pelo sacolejo da corrida e pelos pingos, está com uma cara de "Enfim, vocês podem me explicar o que está acontecendo?".

Monday, December 07, 2009

Aquele inglês triste de Burma


É-me difícil escrever / falar sobre Nick Drake, mas como hoje eu o ouvi um bocado, não custa tentar.

Mesmo assim, dada a dificuldade, vou começar citando Tom Verlaine (e olha que este entendia do riscado): "You know, Nick Drake was the very best of all".

Claro que aí entra a questão do gosto, sempre pessoal e intransferível (e por isso mesmo passível de discussões), mas que este inglês pernalta triste, nascido em Burma (!) em 1948, escreveu canções belíssimas, dentre as mais belas do vasto repertório dos singer-songwriters, isto é fato, ou algo próximo a isso.

Dos seus três álbuns apenas (ele deixou este mundo triste aos 26 anos), recomendo em especial o primeiro, Five Leaves Left, de 1969, e o terceiro, Pink Moon, de 1972. Parece que parte da crítica exalta mesmo é o segundo, o Bryter Later, que eu acho um tanto estragado por uma produção que o queria jazz, algo que Nick definitivamente não era. Essa produção / superprodução também tenta estragar um pouco algumas canções do Five Leaves, com orquestrações pesadas e edulcoradas, mas a voz e o violão do Nick felizmente falam mais alto. No último, deixaram-no no estúdio como ele era no mundo: sozinho. O resultado é um punhado de canções descascadas e pungentes. Ouvi-las é como mergulhar numa piscina vazia.

É difícil falar em Nick, é difícil falar em canção preferida do Nick, mas esta bem que podia ser a assombrosa "Fruit Tree", tanto que sobre ela escreverei post em separado.

Saturday, December 05, 2009

O sogro que não tive


O sogro que não tive era um labrego minhoto farrista. É fácil reconhecê-lo na foto, ele tem nas mãos uma caneca, como Vinícius tinha seu cachorro enlatado.
O sogro que não tive veio dar no Brasil fugindo das insanas guerras coloniais portuguesas. Queria namorar e beber. E trabalhar. Tudo, menos morrer pelo mapa cor-de-rosa idiota do Salazar. O sogro que não tive ganha meu terceiro ponto aí. (O segundo ganhou ao ter a caneca em mãos. O primeiro, por ter tido filha tão linda.)

Este sogro foi rejeitado pela sogra, pirralho e duro que era, mas soube reverter a situação, conquistando o coração da moça.

O sogro que não tive... como teria recebido o genro? Já me perguntei tantas vezes. Com este sogro eu teria feito farras, subido ao terraço de Pendotiba para ver balões (fosse junho), ouvir cigarras (fosse dezembro).
O sogro que não tive foi o pai que mulher e cunhado não tiveram, mas não vejam aqui qualquer tom de crítica, mesmo porque seria tolo (além de minha habitual tolice) criticar um homem que não escolhe (escolhe?) voltar ao verdes prados minhotos que só há no céu e que me traz à mente versos de Drummond que eu julgava esquecidos:
OS MORTOS DE SOBRECASACA
Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço da vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas.

Meu reino por uma Pratinha



Renata, madrinha do Dante e leitora deste blog, manda e-mail dizendo que se lembrou de mim ao rememorar sua experiência num pub escocês. É sempre assim, um dia acostumo, a galera só lembra de mim quando o papo é bebida, pouco adianta eu gostar também de Prokofiev, Harmonium, Sándor Márai, Vargas Llosa, cigarras, Kieslowski. Mas é claro que gostei da lembrança: I LOVE PUBS! E aproveitei o ensejo para rememorar também as cervejas escocesas.

Quando estive na Escócia, em 1o de janeiro de 2007, tive a oportunidade de provar sua cerveja com urzes, isto é, heather. Ou será o contrário?: heather, isto é, urzes? Enfim, provei, re-provei e aprovei, porque uma preciosidade destas só se encontra mesmo na terra do Nessie. O Stevenson (sim, aquele do médico e do monstro e que também foi parar no Pacífico) escreveu um poema para esta cerveja, simplesmente chamado "Heather Ale", por aí avaliem. Reza o folclore, numa terra que o tem em grande conta, que seria ela invenção dos Picts. Não sei. Na dúvida, quando encontro, bebo.

E eis que descubro que aqui, em terras tupi-guaranis, já foi feita também uma cerveja com urzes! Cruzes! Muy apropriadamente denominada "Scottish Ale", a bichinha é criação / representação da Cervejaria Colorado, o que não causa espanto nenhum.