Friday, November 01, 2019

Minha coleção de CDs (enfim) reorganizada





Pode até parecer ostentação, mas quem hoje iria se ostentar com coleção desse objeto obsoleto, o CD?

Descartada, pois, essa hipótese, é isto: reorganizo minha coleção de CDs passados oito anos de abandono e destruição. E o faço em homenagem à minha mãe. E se as coisas parecem obscuras ou dramáticas, explico:

Dante, meu filho amado, tem autismo. Nos seus dificílimos primeiros anos, ele cismou porque cismou com minha enorme e cuidada coleção de CDs, tendo algum prazer e grande obsessão em tirá-los do lugar, arremessá-los no chão, jogá-los pela janela, quebrá-los. Mas isso era ainda algo menor, comparado a outros comportamentos e estereotipias como bater a cabeça no chão, morder-se, agredir-nos. Com a distância, parece fácil pensar hoje que bastava tirar os CDs de seu alcance, escondê-los enquanto ele estivesse dormindo (o que fazia pouquíssimo) para preservar a coleção. Sim. Mas quando se está no olho do furacão, exausto estressado frustrado, não se tem clareza nenhuma.

Quando a mãe do Dante saiu de casa e eu fiquei absolutamente só, minha mãe vinha do Rio (morávamos em Niterói) para ajudar alguns finais de semana. Num sábado de destruição, ela reagiu "Não deixa não, Evandro, é a sua coleção, são seus CDs".

Guardei aquilo.

Juntei os cacos. Faltou-me energia para organizar a coleção na primeira mudança. Nesta agora, enrolei as mangas, chamei marceneiro e aí está. Ainda abro um CD do Banco e encontro um Andrew Bird, às vezes não encontro nada. Reavalio também minha relação com a coleção: num exercício raro de desapego, boto itens à venda ou doo. 

Eu havia prometido que só voltaria a comprar depois que organizasse a coleção. Pois, no show do Arcpélago, durante o ótimo Carioca Prog Festival, compro, criança, o Caravela Escarlate e o Kaizen.

E a Dona Maria de Lourdes, sentada em sua nuvenzinha, a tudo assiste feliz: à coleção que retoma forma, ao menino mais lindo que cresce feliz, amado.

Obrigado.






Tuesday, October 29, 2019

Um Ment para carinhosamente chamar de nosso



Coisa típica da mãe: uma vez ela ia jogar fora um relógio de cozinha, cafona azul em forma de frigideira, mas quando o colocou no lixo e ficou ouvindo o tique-taque, achou talvez que era como enterrar alguém vivo ou, mais brandamente, cometer eutanásia, coisa que jamais faria, daí retirou o velhinho azul (cafona) e o pendurou de volta (em forma de frigideira), onde bate até hoje neste mundo de aparências.

Lembrei delas -- da história e da mãe -- por ocasião de nossa mudança recente, que me causava imensa preguiça, porém não maior que o pesar ante a perda do grafite que o Ment fizera para o Dante em seu quarto (aqui). Que tristeza! Nem um ano!

Passei mensagem para o Ment, que imediatamente respondeu: "Nem preciso dizer que faremos outra pintura, mais legal que a atual", o que de uma vez derrubou desânimo, tristeza, preguiça.

Marcelo Ment, que vive exclusivamente do seu trabalho como artista, é felizmente um cara muito ocupado. E tem muita palavra. Preparamos a parede (mais bonita em sua cor bolo de cenoura), enviei-lhe as fotos para sua escolha, que recaiu numa deste ano tirada no Bob's da Praça XV, onde paramos para comer um sundae depois do passeio de 606 e VLT.

Dante vestia uma camisa laranja, de modo que tudo começou a dar certo: ele pensou em abrir a camisa, imiscuí-la à parede, infinita.

O resultado se vê nas fotos.

Com as latas na mão, Ment é como Chet Baker com o trompete, como um desses adolescentes americanos doidos por basquete e sua bola: não larga. Eu já achando a parada absurdamente linda e ele inquieto, mãos nervosas, acertando aqui, ajeitando ali, eu me remexendo de nervoso. Até hoje diz que vê as fotos e quer voltar para uns acertos. (Pode voltar, mas será para uma cerveja.)

Disse a ele que desta vez não queria me mudar tão cedo, para ficar tempo com este grafite lindo. Pampi, sem me ouvir, logo em seguida lhe disse que já não acharia mal nova mudança. Para ganhar outro grafite lindo. Nosso jeito de concordar nas coisas.

E o mais legal foi que desta vez o Dante curtiu muito, quis ficar perto, pediu que Marcelo lhe desse banho, que só pede para quem ele gosta e confia muito.

De qualquer modo, se numa dessas madrugadas cheias de sabiás e cigarras eu me encher de coragem e me mudar, sempre com eles, claro, para Milho Verde, esta parede ficará eterna, intacta suspensa no ar neste mundo de aparências. Como o beco do Manuel. E o relógio cafona da vovó do Dante.





















Wednesday, October 09, 2019

São Paulo : Comoção da minha vida



Havia postagem aqui com muitas fotos de São Paulo, com versos de Mário e o que deles fez Gilberto Mendonça Teles: 'São Paulo comoção de minha vida / como ação de minha vida' e por aí ia. Não achei o diabo da postagem que o buscador do blog está mesmo uma bosta.

Anyway, voltar a São Paulo ao menos uma vez ao ano, o pretexto podendo ser o show da banda da vida, que não virá ao Rio. Assim com Transatlantic, com Steve Wilson, Magma e agora King Crimson, neste show apoteótico.

Não havendo pretexto, we'll always have a Rua Aurora 100, que inda não inventaram endereço mais bonito