Sunday, September 02, 2018

Um limerique para Bozonaro


A ideia era comprar a angostura no Cadeg e depois comer bolinho de bacalhau no Adonis. Comprada a preciosidade de Trindade e Tobago, andamos nosso quarteirão de sol rumo ao mítico Adonis, dos bacalhaus soberbos e do chopp onde o palito fica em pé no colarinho.

O palito não fica mais em pé e não tinha bolinho de bacalhau. Pode ser que, fiel ao nome, estes tenham descido ao submundo para voltar na primavera. Mas já estamos em setembro. E o submundo às vezes parece fica aqui. 

Enfim.

Voltamos ao Cadeg, onde encontramos Jean Wyllys em plena campanha para deputado federal.

Jean cuspiu em bolsonaro, pelo que mora em meu coração até o fim dos tempos.

E Camila e ele e nós descobrimos ainda que ele morou também no Cabula, no mesmo conjunto residencial.

Empolguei que fiz limerique:

Caetano nasceu em Santo Amaro
Pampi, em São Pedro do Buraco Raro
Quando encontram Jean Wyllys
Os três, sem nenhuma bílis,
Escarram grosso sobre o bolsonaro.





Saturday, September 01, 2018

Crônicas Peruanas XIV ::: Chelawasi


Meu amor por Sagarana começa pelo título, neologismo-hibridismo juntando duas línguas tão imprescindíveis quanto improváveis: o nórdico saga (e daí viria o inglês say) e o sufixo tupi -rana, à maneira de, como em taturana, tatarana, à maneira do fogo, como se fogo fosse, e dez anos depois, Riobaldo Tatarana.

Então, Sagarana = à maneira de uma saga. Mas não dos deuses nórdicos, antes sertanejos e plantas e burrinho.

Assim a cervejaria Chelawasi em Arequipa, que une chela, termo coloquial para designar cerveja em castelhano, e wasi, casa em quéchua. Casa de Cerveja, onde mais se pode querer estar?

Aqui um norte-americano de Oregon e uma limenha encontraram pouso onde fazem cervejas artesanas de qualidade, bem como servem outras tantas. Antes tentaram Lima, mas Lima sabem como é, o sol não brilha, a garúa chove. Em Arequipa fazem, dentre outras, uma Cascadian Dark Ale batizada de Black Jesus, que maravilha isso. Se no Rio temos os grafites / colagens do "Jesus Pretinho", do Alberto Pereira, o menino bebê retinto nos braços da Alvíssima Maria, aqui o menino cresceu, Jesus Negão.

Gostei tanto que comprei pôsteres. Evoé, Jesus.

Pix far from good






Friday, August 31, 2018

Acho que meu filho tem alguma coisa na cabeça


Acho que meu filho tem alguma coisa na cabeça. Sério, essa história desses acalorados carinhos, essas birras cósmicas, essa boquinha desenhada por Parrásio, essa gargalhada que ninguém tem, o castanho infinito dessas íris, essa maneira de me agarrar pelo colar, de bater no sofá a pedir / ordenar que eu me sente ao lado.

Acho tem alguma coisa na cabeça. Imperioso anuir, aceder, ceder. Estou como Maiakóvski, 'Socorro, mãe, chame os bombeiros'.

Ah, um texto bobo só pra acompanhar coisas que ele já botou na cabeça este ano. 









Trilha, again:

'I never felt magic crazy as this
I never saw moons knew the meaning of the sea'



Q'aphchik'ijllu


Há algum tempo, que não sei precisar quanto, Cusco, tomada por nova onda de orgulho indígena (nenhuma ironia aqui, pelo contrário), trocou diversos nomes de ruas do centro histórico. Sai o castelhano, entra o quéchua. 

Verdade que muitas dessas ruas são ainda conhecidas pelos nomes antigos, mas isso é assim mesmo. Mera questão de tempo para que se refiram à Calle Triunfo pelo tão mais bonito novo nome Sunturwasi (pelo que me lembro das aulas de quéchua do 2o grau: wasi = casa; suntur = encontro).

Aproveitando o ensejo: descobrimos que a Praça Malvino Reis, no Grajaú, que de praça pouco tem, homenageia militar torturador, tão a gosto do bairro. Eu trocava mole seu nome para Q'aphchik'ijllu.







Thursday, August 30, 2018

As Renovadoras de Cuzco ::: Crónicas Peruanas XII


Tive um professor de História gordo e barbudo (epa!) de nome Mercadante. Um colega seu, o Cauby, de Português, chamava-o de Merdandante, trocadilho ótimo e de fato Mercadante era bem mal-humorado e sabia ser bem grosso. Defesa, talvez, contra aquelas turmas enormes (45, 47 alunos) da fina-flor da burguesia tijucana que podiam engolir vivo qualquer professor.

Lembro de vê-lo rir uma única vez, assim como lembro dele falando de mais-valia e exploração do sistema capitalista. Falou nos sapateiros e suas portinhas sujas e entulhadas para as quais ninguém presta atenção, certamente ninguém daquelas turmas enormes do Marista São José.

No entorno do Mercado San Pedro em Cuzco (aqui), há várias dessas portinhas (a quem chamam de renovadoras!), uma das quais, a Elmer, chamou-nos a atenção em especial, pois prometia ser o local de encontro dos meus grandes amigos. Quem são meus grandes amigos, Elmer? Meus sapatos? Meus amigos mesmo? 

Ah, já não era só uma portinha 




Crônicas Peruanas XI :: Arequipa



Ver Arequipa como a "segunda maior cidade do Peru" pode ser enganoso, de vez que ela é quase dez vezes menor que Lima. Ou seja, definitivamente não se trata de cidade grande, ninguém ainda a tornou "bonita" naqueles termos do Manuel Bandeira, com avenidas e arranha-céus. Graças a Inti e que Supay leve quem tente fazê-lo.

Arequipa segue sendo, pois, cidade do Misti, da Juanita, da Santa Catalina, das picanterías (aqui), de Teodoro Núñez Ureta, do Llosa, que lá nasceu mas não viveu. A Cidade Branca, a República Independente da Virgem do Sombrero. Os sombreros. Um barroco insano e paradisíaco. E sempre algo mais, que escapa aos guias, como a Chelawasi e o portão aquele mesmo portão da casa da minha avó na Rua Uruguai, 56, quase esquina com a Maxwell.