Monday, November 16, 2015

Dante e os Visitadores

Com Beth


Meu vizinho tem um filho com autismo, chamado Fuas Roupinho. Fuas, às vésperas de completar sete anos, tem um tio que deve ter estado com ele umas cinco vezes no máximo. Em sete anos. Morará longe esse tio, talvez na Austrália, pensarão, mas não : este tio mora no mesmo bairro do Fuas. Ah, então será um daqueles homens que não têm jeito nenhum com criança (o que seria péssima desculpa) : but, again, no : o tio é pedagogo, trabalha com educação infantil e às vezes vai para pracinhas contar histórias para crianças desconhecidas, fazendo questão de tudo documentar no facebook. Ninguém merece tio desses, hein, Fuas, menino impossível, espoleta, birrento, lindo, adorável.

Impossível não lembrar do Dante. Como o Dante tem recebido visitas de amigos nossos, como tem se mostrado receptivo a esses encontros! Fica tão feliz que me dispensa ostensivamente, me dando tchau, e faz muito bem, o pai barbudo eu vejo todo dia, me deixa aproveitar a visita.

Seguem alguns registros, apenas deste ano.

Com a Beth ouviu histórias no tapete mágico, com a Cláudia revirou o quarto, escalou no Marcelo, fez da Beatrice travesseiro, da Camila extensão do seu corpo, com o Gabriel uma zorra do cacete, com Keila foi à lua voltou, de joelho arranhado, da Giulia ouviu músicas, amou Rixa e Karla mesmo com a vovó por ali, com Eric e Carla gritava de puro gozo, só, só pela presença, com o João tentou pegar o vento que soprava nas folhas altas das figueiras amarelas.

Quem beija meu filho minha boca adoça, gostava de repetir a vovó do Dante, sábia paremióloga. Toda razão.

Com Cláudia

Com Marcelo (e uns sujeitos ao fundo)

Com Beatrice

Com Camila

Com Gabriel

Com Keila

Com Giulia

Com Rixa e Karla

Beth de novo (olha esse sorriso)

Com Carla e Eric

Com João


Saturday, November 14, 2015

O Tao do Prokofiev, o Prokofiev do Tao



Lembro-me da preocupação de Said (sim, ele mesmo, o do orientalismo e do cultura e imperialismo) com a unidade, com a coesão e coerência de um programa de concerto, principalmente quando este envolvia piano.

Lembrei-me de Said hoje depois da apresentação magistral do Conrad Tao com a OSB tocando o 3o Concerto para Piano do Prokofiev. Não digo que o Municipal tenha vindo abaixo (nosso Municipal que agarra-se ao século XIX como o limo à pedra), mas, dados os apalusos, o pianista de 21 anos houve por bem mimar-nos com um bis. Pois aí. Imagine que depois do concerto de Prokofiev, com seus dois minutos finais que são, simplesmente, uma das experiências mais eletrizantes que se pode ter na vida, Tao tocasse um Chopinzinho, um Bach, um Scarlatti. Nada contra os três, mas seria de um anti-clímax tremendo, melhor que nem houvesse. E qual carta Tao retira da manga? O terceiro movimento da sétima sonata do Prokofiev (o 'Precipitato', que apareceu recente neste blog, ver aqui), peça que faz Motörhead lembrar música de criança. (Ou nos faz lembrar que Motörhead é música de criança, com a devida data venia ao Philthy Animal Taylor, recém-falecido.)

Said se contorceu no túmulo. De regojizo.

E assim fechou-se o concerto de hoje, que antes tivera a primeira sinfonia de Shostakovich e "Pángü", peça do próprio Conrad Tao. Eu tinha esse Shostakovich em vinil, comprei garoto, nunca bateu. Hoje achei sensacional. Em seu opus 10, Shosta já revela o que faria depois nas sinfonias posteriores. Por aí se vê a riqueza inesgotável da música sinfônica russa do século XX.

A peça de Conrad Tao também pareceu-me muuuuito interessante, traços de Villa-Lobos aqui, Wim Mertens ali.


Friday, November 13, 2015

Penedo ::: Um Mapa do Mundo que Inclua a Utopia



Como "um mapa do mundo que não inclua a Utopia nem vale a pena ser visto" (Wilde), vale a pena estudar essa história de uns finlandeses ripongas que em 1929 deixaram amigos, livros, riquezas e vergonha na Escandinávia em troca do calor dos trópicos.

Tervetuloa.










Penedo ::: Ou não




Adolescente, muitas vezes fiquei com amigos ao pé da mítica estrada de polegar em riste para chegar à nossa mítica Cocanha, que então atendia por Mauá, Visconde de Mauá, Maringá, Maromba, Vale das Flores, Vale do Pavão, Marimbondo. Penedo, dizia-se, ficava logo adiante, mas para nós a distância parecia imensa, dado o nosso desinteresse, eufemismo de desprezo. Isso nos primeiros anos dos 80. Só fui conhecer Penedo mesmo uns vinte anos mais tarde e enfim passar noites por lá, trinta.

Alguns registros.








Monday, November 09, 2015

Two of us and Paul in Penedo


A rolleiflex já estaria, claro, suficiente para nos ligar ao Paul nesta pequena estada em Penedo. Mas não foi só isso, foi também o melro em nossa janela às 5:30 da manhã. Melro, para quem não sabe, é o blackbird. Literalmente singing in the dead of night.






Saturday, October 31, 2015

'El Zen Surado'



Imaginem uma jovem chilena de seus vinte e poucos querendo publicar livro de poemas eróticos em 1972. Cem poemas eróticos (sem canção desesperada) a serem publicados pela editora da Universidade Católica de Valparaíso. Embora haja quem goste, quem a encoraje, o reitor bate o martelo "Sobre meu cadáver" e, além de queda, coice, depois de 1972 vem 1973, com ele um dos mais sangrentos golpes militares do Cone Sul. 

Sob o gorila Pinochet, o "homem que endireitou o Chile", segundo muitos brasileiros, seus originais são todos... lançados ao mar. Simples assim.

El Zen Surado vem à luz mais de 40 anos depois. Cecilia Vicuña o dedica às estudantes "que marcham vestidas ou nuas pela justiça".

Acho isso atualíssimo aqui para nós.

E erotismo, por supuesto, sempre atual também.

Abaixo tento uma tradução.


POEMA PURITANO

Adoro meu sexo
Entre o teu sexo e o meu
não sei qual escolho.

É que o teu
é tão divertido
e o meu tão belo.

Mas o que deve
ser ressaltado
é como o teu
cabe no meu
sendo ele tão grande
e brilhante.

Os sexos são
eles mesmos
perfumados.

Morrer com a mão no sexo.

Não de mãos dadas
ainda que disso possa cuidar
a outra mão.


POEMA PURITANO

Me encanta mi sexo
Entre tu sexo y el mío
no sé cuál elegir.

Es que el tuyo
es tan divertido
y el mío tan bonito.

Pero lo que hay
que subrayar
es cómo cabe el tuyo
dentro del mío
siendo tan grande
y de color brillante.

Los sexos son
en sí mismos
perfumados.

Morir con la mano en el sexo.

No con la mano en la mano,
aunque de eso puede encargarse
la otra mano.

Friday, October 30, 2015

Grajaú ::: Jogar Bola na Rua



Eu passava o dia debruçado sobre a mesa de botão, escapava umas duas vezes por dia pro banheiro para pensar nas beldades do São José, e amava loucamente uma banda que então era só minha, os Beatles, mas nada, nada me deixava mais feliz nos anos da pré-adolescência e do início desta do que jogar bola na rua.

A rua em questão era a Visconde de Santa Isabel, que para ser nobre e fiel ao nome, nasce na Vila, na praça do barão que inventou o jogo do bicho e onde se assenta o monumental Convento da Ajuda. De lá ela prossegue, ladeia o Antigo Zoológico, assiste ao início da Grajaú-Jacarepaguá para tornar-se, irreconhecível do que fora, Grajaú. Com efeito, o trecho iniciado logo após a estrada, uma colina em cujo cimo situa-se exatamente o 486 onde morei e que depois aplaina-se para enfim terminar depois da Canavieiras (em área que já foi tão bucólica que o time do Fluminense concentrava-se ali), em nada é semelhante ao seu troço inicial, no bairro de Noel. Dir-se-iam duas ruas diferentes.


Ali é Grajaú, literalmente Alto Grajaú (ninguém usa essa terminologia, só essa crônica), onde morei no pequeno prédio de três andares e seis apartamentos e muitos escadas bem no alto da colina e bem no centro da curva. Ali, com colina e curva, fazia o que mais amava na vida: jogar bola na rua. Os companheiros eram Cláudio, Caco, meu irmão, Branquinho, Branco, às vezes Dentinho e Mamão. Não adianta procurar no facebook, de nenhum sei sobrenome; na verdade sequer o nome dos quatro últimos. Havia ainda os odiosos irmãos César, Marco Antônio e André. E havia o Marcelão. Amigos de verdade eram Cláudio e Caco. Branquinho era solerte e Branco a vítima inclemente do bullying. Dentinho e Mamão não fediam nem cheiravam e o Marcelão era Marcelão, grande, gordo, afável, vascaíno, a barriga escapando da camisa. Creio que circulava bem tanto entre nós quanto entre César e Marco. Não brigava, não xingava, sempre amável que era. E pelo físico, sempre goleiro também.

Como disse, jogávamos precisamente no trecho da curva, precisamente no trecho de leve inclinação. Não me lembro, no entanto (hoje que time perde jogo e se defende argumentando que estava contra o vento), de escolhermos no par ou ímpar lado do campo ou frescuras do tipo. Poucos carros passavam e a chegada de um era logo sinalizada por um indefectível "Parôôôôôô!..." Continuar a jogada ou, pior, chutar a gol depois desse aviso era motivo de intermináveis arranca-rabos. Jogávamos uma partida atrás da outra, um monte, o tempo todo discutindo o tempo todo xingando, nós que nos amávamos tanto, até que as cigarras começassem seus gritos e com elas mães começassem a nos chamar da janela e um a um nos recolhêssemos cabisbaixos : "Vou chegar". 

Acho que me lembro de todos os jogos, acho que me lembro de todos os lances. Lembro-me de um gol que fiz, ilegal. Ralei a perna toda. Enquanto Caco e Claúdio recusavam-se, acertadamente, a reconhecer o gol, eu mentia, mentia com uma convicção que até hoje me assusta e encanta. 

Hoje não vejo ninguém, nin-guém, jogando bola na rua. E eu que procuro evitar a queda na nostalgia fácil, não posso deixar de, como Bashô em Kyoto, sentir saudades do Grajaú. Ao andar no Grajaú.

Eu Catumbo, tu Catumbas, ele Catumba



A contribuição de Mariana Filgueiras para O Meu Lugar -- a crônica "435 Gávea-Grajaú, via Catumbi" -- empolgou-me de tal sorte que, mal a terminei, já estava abrindo e fechando gavetas no pecê, em busca de registros do bairro que julgava ter.

E tinha, e tenho. 

Há pouco mais de três anos passei tarde de agosto por lá, havia um ipê que o céu tornava mais absurdo e tive que correr para pegar a Nossa Senhora dos Alpes Franceses, isto é, a Salete, ainda aberta.

O Catumbi é bairro muito antigo, hoje lembrado quase que tão-somente pelo cemitério, pelo Sambódromo, pela violência. É pena. Coisas lindas por lá.

E / mas, Mariana, uma cousa: como alguém escreve crônica tão bonita sobre o bairro, ainda que através da janelas encardidas do 435, e não endereça palavra àquela chaminé doida que esqueceram por lá? Sabe aquela história de Marco Polo que foi à China e não fala da muralha? Pois.